O OBSERVADOR
DA VIDA
Enquanto se prepara
para escrever sua
última novela, Manoel
Carlos conta sua
história - e mostra
de onde retira os
dramas que apaixonam
os brasileiros
Martha Mendonça
Era nosso terceiro encontro. Nos dois primeiros, a conversa foi tão boa que já me dava por satisfeita. Mas, naquela terça-feira de março, o novelista Manoel Carlos me telefonou sugerindo um novo encontro no fim da tarde, na livraria Argumento, no Leblon. Quando cheguei, Maneco - como é chamado pelos - já estava lá, numa mesinha de canto, me olhando. A atriz Fernando Montenegro tem razão. "Os olhos de Maneco são como ventosas. Ele se expõe pouco encontro, Manoel Carlos pergunta mais de minha rotina de trabalho e como faço para trabalhar e criar os filhos. É bom ouvinte. Presa na armadilha, conto os detalhes, pensando se inspirarei algum personagem. "As melhores histórias estão aqui e ali", diz ele.
Famílias como a minha e a sua lhe interessam. Os laços de família - título de uma de suas novelas de maior sucesso - são a matéria-prima de suas histórias. Talvez por isso nenhum outro produto da dramaturgia mundial tenha tantas cenas de café da manhã, almoço e jantar quanto suas histórias. Nos lares se desenvolvem tanto as tramas mais trágicas quanto a discussão trivial sobre o aumento do pão. Os gêmeos separados no berço de Baila comigo, a mãe que troca de bebê com a filha que perdeu sua criança no parto de Por amor, a filha amada que fica tetraplégica em Viver a vida - todos esses dramas se misturam á crônica de questões íntimas como o vazio feminino, mulher que não consegue ser fiel, o homem que espera a mulher idealizada. Agora, quase aos 80 anos (que completará no ano que vem), Manoel Carlos diz que quer escrever só mais uma novela. Acompanhadas diariamente por 50 milhões de telespectadores, as novelas das 9 da noite da TV Globo, o horário mais nobre da televisão brasileira, saem da pena de poucos autores. Trata-se de trabalho cansativo, cercado de pressão por todos os lados. Nesse seleto time de autores - as "ararinhas-azuis", raras e em extinção, como o escritor Aguinaldo Silva definiu -, Maneco é o mais velho.
Ele entregará no fim deste mês a sinopse de seu último folhetim, previsto para ir ao ar em 2013. Será sua derradeira Helena, nome comum a toda as suas protagonistas desde Baila comigo, de 1981. Vivido por estrelas como Regina Duarte, Vera Fischer e Maitê Proença (leia a galeria nas páginas 84 e 85), elas são apresentadas ao público e amadas por ela a cada três anos, mais ou menos. Helena, ele costuma repetir, não foi nome de namorada, mulher, nem de alguém da família. "Escolhi por ser um nome forte. Uma curiosidade: em 1952, com menos de 20 anos, Maneco adaptou para a antiga TV Paulista o livro Helena, de Machado de Assis. Era teleteatro, representado ao vivo diante das Câmeras. "Essa Helena não está diretamente relacionada ás Helenas das novelas", diz ele. Agora, 60 anos depois, já escolheu a atriz que interpretará sua última Helena: Julia Lemmertz, filha de uma de suas mais queridas Helenas, Lilian Lemmertz, morta em 1986. Ela encabeçava o elenco de Baila comigo, primeira novela de Maneco no horário das 9.
Manoel Carlos ouve por vício profissional e, pela mesma razão, é também um narrador fascinante. É visível que narra suas histórias menos para impressionar que pelo prazer de lembrar dos acontecimentos e dos amigos - muitos já morreram. Se prende a detalhes saborosos, como o apelido dado a Chico Buarque e Nara Leão no programa Para ver a banda passar, de 1967, na TV Record. "Como dois tímidos poderiam estar á frente de uma atração? Eles eram ótimos, mas faltavam pouco e baixo. Ganharam o apelido de desanimadores de auditório", diz. Maneco também parece viajar no tempo ao falar sobre a morte de Jardel Filho, em 1983. Jardel era o galã de sua novela Sol de verão. Vivia um mecânico doce e rústico, par romântico da protagonista rica. O casal ganhara o Brasil, e a audiência ia muito bem. Num domingo de fevereiro, Maneco saiu de cada cedo para comprar os jornais. Em tempo pré-internet, passava numa banca de Ipanema e levava várias publicações. "os jornais são sempre fonte de enredos e personagens", afirma. Naquele dia, não chegou a ler nenhum. No rádio do carro, era anunciada a morte de "Jardel Filho, o Heitor de Sol de verão aos 56 anos, de infarto". Ficou catatônico por dez minutos, sem saber o que fazer. Uma hora depois, estava na de Jardel com os amigos Tony Ramos e Paulo Figueiredo, que também faziam parte do elenco. Antes que o corpo fosse velado, fizeram a barba do amigo morto."Estava grande. Jardel era bonito demais para se despedir daquele jeito"diz. Maneco não escreveu o fim da história. Não conseguiu. Foi substituído por Lauro Cesar Muniz.
Não seria a primeira nem a última vez que ele teria de lidar com a morte precoce de gente amada. Quando seus filhos ainda eram adolescentes, perderam a mãe, a ex-mulher Maria de Lourdes, artista plástica. Com apenas 36 anos, ela caiu da escada, em casa, quando saia para uma festa. Os dois haviam se casado quando ele tinha 19 anos, e ela 17. "Ela estava grávida e resolvemos ficar juntos", diz. O bebê que os unira, Manoel Carlos Filho, o Manequinho, morrera em março, três semanas antes de nossa primeira conversa, de infarto. Tinha 59 anos. "A morte de um filho é uma armadilha no fim de um corredor escuro", afirma Maneco. Uma armadilha que, para ele, veio duas vezes: em 1988, seu segundo filho, Ricardo, ator, morreu da aids. A filha Júlia, também atriz, deu dois sustos - duas meningites na infância, que também quase a levaram. Maneco tem ainda mais dois filhos - Maria Carolina, roteirista, de seu casamento com Cidinha Campos, e Pedro, irmão de Júlia, de seu atual casamento, com Bety Almeida. Instintivamente, lhe digo que com tantos dramas, sua vida poderia ser uma novela. Por trás dos aros grossos de seus óculos, seu olhar me diz que meu comentário nada tem de inédito.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
''NÃO PENSAVA
EM ROUPAS.
TENTAVA MUDAR
O PAÍS''
Ela foi militante política nos anos 70, presa, torturada teve o pai assassinado por um militar. Anos depois, tornou-se ministra da Defesa e presidenta do Chile. Hoje, defende os direitos das mulheres na Organização das Nações Unidas e sabe, de perto, como é enfrentar preconceitos.
Por Marina Caruso
Na psicologia, a capacidade de superar traumas e sair fortalecido deles chama-se resiliência. A palavra, também usada para definir o potencial de um objeto de retomar sua forma depois de uma deformação, encaixa-se bem a ex-presidenta do Chile. Michelle Bachelet, 61 anos. Atual diretora-executiva da ONU Mulheres _ braço das Nações Unidas criado para combater a violência e a desigualdade de gênero _ Michelle expandiu os limites da resiliência. Transformou os próprios traumas em algo melhor para si e para os outros. Depois de ser presa e ter o pai, o brigadeiro Alberto Bachelet, assassinado durante a ditadura, formou-se em medicina e pós-graduou-se nas Forças Armadas e na Academia de Políticas Estratégicas do Chile. "Precisava disso para entender a ditadura que levou á morte 40 mil chilenos'', diz. Mãe de três filhos (Sebastian, 33, Francisca, 28 e Sofia 19)e separada duas vezes (uma do arquiteto Jorge Dávalos e outra do epidemiologista Aníbal Henriquez), Michelle foi a primeira mulher a ocupar o Ministério da Defesa e, depois, a Presidência da República em um país onde até pouco tempo atrás nem o divórcio era permitido.
De passagem pelo Brasil para a Terceira Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, ela conversou com MarieClaire em diferentes momentos; no Palácio do Planalto, em Brasília, no morro do Cantagalo, no Rio, e no hotel em que esteve hospedada. Em todos eles _ abraçando uma líder comunitária ou cumprimentando com beijinhos a presenta Dilma _ sorriu com gentileza. Prova de que é perfeitamente possível ser firme "sin perder la ternura".
EM ROUPAS.
TENTAVA MUDAR
O PAÍS''
Ela foi militante política nos anos 70, presa, torturada teve o pai assassinado por um militar. Anos depois, tornou-se ministra da Defesa e presidenta do Chile. Hoje, defende os direitos das mulheres na Organização das Nações Unidas e sabe, de perto, como é enfrentar preconceitos.
Por Marina Caruso
Na psicologia, a capacidade de superar traumas e sair fortalecido deles chama-se resiliência. A palavra, também usada para definir o potencial de um objeto de retomar sua forma depois de uma deformação, encaixa-se bem a ex-presidenta do Chile. Michelle Bachelet, 61 anos. Atual diretora-executiva da ONU Mulheres _ braço das Nações Unidas criado para combater a violência e a desigualdade de gênero _ Michelle expandiu os limites da resiliência. Transformou os próprios traumas em algo melhor para si e para os outros. Depois de ser presa e ter o pai, o brigadeiro Alberto Bachelet, assassinado durante a ditadura, formou-se em medicina e pós-graduou-se nas Forças Armadas e na Academia de Políticas Estratégicas do Chile. "Precisava disso para entender a ditadura que levou á morte 40 mil chilenos'', diz. Mãe de três filhos (Sebastian, 33, Francisca, 28 e Sofia 19)e separada duas vezes (uma do arquiteto Jorge Dávalos e outra do epidemiologista Aníbal Henriquez), Michelle foi a primeira mulher a ocupar o Ministério da Defesa e, depois, a Presidência da República em um país onde até pouco tempo atrás nem o divórcio era permitido.
De passagem pelo Brasil para a Terceira Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, ela conversou com MarieClaire em diferentes momentos; no Palácio do Planalto, em Brasília, no morro do Cantagalo, no Rio, e no hotel em que esteve hospedada. Em todos eles _ abraçando uma líder comunitária ou cumprimentando com beijinhos a presenta Dilma _ sorriu com gentileza. Prova de que é perfeitamente possível ser firme "sin perder la ternura".
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Porque a Alemanha
é diferente?
Os alemães estão no meio da crise europeia,
e mesmo assim sua
economia mantém
o vigor, a confiança
e o poder para afetar
o mundo, incluindo
o Brasil. Qual é
o segredo?
Marcos Coronato
O continente europeu continua instável. Períodos de relativa calmaria são logo interrompidos por sinais de que a crise econômica do continente pode se agravar ainda mais - e rapidamente. Como se anunciasse um grande terremoto para breve, o Velho Continente continua sofrendo com pequenos, mas regulares, tremores. Menos a Alemanha. A economia alemã, mesmo no centro da crise europeia e rumando para uma possível recessão em 2012 (após um belo crescimento de 3% em 2011), segue digna de confiança de investidores. Muitos se perguntaram por quê. Há historiadores que recuam ao anos 9 na busca da origem de uma força singular dessa nação; Guerreiro de diferentes tribos se agruparam na floresta fechada e lamacenta de Teutoburgo, no território que o Império Romano chamava de Germânia. Sob o comando do chefe Hermann (ou Armínio, na versão latina), eles se esconderam e emboscaram três legiões romanas, aniquilando 15 mil soldados. Os romanos recuaram e nunca mais tentaram seriamente conquistar a Germânia. Ali floresceriam lei e costumes muito característicos - e um país que viria a se chamar Alemanha.
A mais recente demonstração de confiança nos alemães foi dada na sexta-feira 13 de janeiro, quando a agência de classificação de risco Standar & Poor`s passou a considerar nove países europeus menos confiáveis como pagadores de dívidas, incluindo a França, sem tocar na nota que caracteriza a Alemanha como porto seguro econômico. Logo o início do ano, o país havia recebido outra deferência. A maior empresa de administração de recursos do mundo, a americina Black Rock, afirmou que a crise na Europa poderia piorar muito (um cenário que a empresa chama de Nêmesis, a deusa grega da punição e da vingança). E listou quais seriam os pouquíssimos investimentos seguros no mundo nesse caso: estocar ouro e emprestar dinheiro para alguns países, como Estados Unidos, o Japão e -a adivinhou? - a Alemanha.
Os efeitos e a reputação da economia animaram o país, nos últimos anos, a chamar por seu lugar de volta na política global. Desde a reunificação, em 1990, a Alemanha passou a atuar em frentes diversas - compôs a força internacional de combate aos talebans no Afeganistão, participou de negociações entre israelenses e palestinos e negocia com outras potências para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Mas o que fizeram os alemães para desfrutar esses status, mesmo sem resolver a crise europeia? Essa questão pode ser dividida em algumas perguntas-chave, reveladoras sobre o que aconteceu naquela parte do mundo desde que os germânicos impediram o avanço romano, 2 mil anos atrás.
é diferente?
Os alemães estão no meio da crise europeia,
e mesmo assim sua
economia mantém
o vigor, a confiança
e o poder para afetar
o mundo, incluindo
o Brasil. Qual é
o segredo?
Marcos Coronato
O continente europeu continua instável. Períodos de relativa calmaria são logo interrompidos por sinais de que a crise econômica do continente pode se agravar ainda mais - e rapidamente. Como se anunciasse um grande terremoto para breve, o Velho Continente continua sofrendo com pequenos, mas regulares, tremores. Menos a Alemanha. A economia alemã, mesmo no centro da crise europeia e rumando para uma possível recessão em 2012 (após um belo crescimento de 3% em 2011), segue digna de confiança de investidores. Muitos se perguntaram por quê. Há historiadores que recuam ao anos 9 na busca da origem de uma força singular dessa nação; Guerreiro de diferentes tribos se agruparam na floresta fechada e lamacenta de Teutoburgo, no território que o Império Romano chamava de Germânia. Sob o comando do chefe Hermann (ou Armínio, na versão latina), eles se esconderam e emboscaram três legiões romanas, aniquilando 15 mil soldados. Os romanos recuaram e nunca mais tentaram seriamente conquistar a Germânia. Ali floresceriam lei e costumes muito característicos - e um país que viria a se chamar Alemanha.
A mais recente demonstração de confiança nos alemães foi dada na sexta-feira 13 de janeiro, quando a agência de classificação de risco Standar & Poor`s passou a considerar nove países europeus menos confiáveis como pagadores de dívidas, incluindo a França, sem tocar na nota que caracteriza a Alemanha como porto seguro econômico. Logo o início do ano, o país havia recebido outra deferência. A maior empresa de administração de recursos do mundo, a americina Black Rock, afirmou que a crise na Europa poderia piorar muito (um cenário que a empresa chama de Nêmesis, a deusa grega da punição e da vingança). E listou quais seriam os pouquíssimos investimentos seguros no mundo nesse caso: estocar ouro e emprestar dinheiro para alguns países, como Estados Unidos, o Japão e -a adivinhou? - a Alemanha.
Os efeitos e a reputação da economia animaram o país, nos últimos anos, a chamar por seu lugar de volta na política global. Desde a reunificação, em 1990, a Alemanha passou a atuar em frentes diversas - compôs a força internacional de combate aos talebans no Afeganistão, participou de negociações entre israelenses e palestinos e negocia com outras potências para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Mas o que fizeram os alemães para desfrutar esses status, mesmo sem resolver a crise europeia? Essa questão pode ser dividida em algumas perguntas-chave, reveladoras sobre o que aconteceu naquela parte do mundo desde que os germânicos impediram o avanço romano, 2 mil anos atrás.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
LIVROS
Só para mulheres
A trilogia erótica
da autoria britânica E.L.
James quebra o tabu do
recato feminino e faz
sucesso nos e-books
Se faltavam uma autora e uma obra que coroassem a moda, ambas acabam de chegar. A trilogia Fifty shades of grey (Cinquenta matizes de cinza, sem tradução no Brasil), livro de estreia da britânica E.J.James, explodiu em vendas na internet. No início do mês, o primeiro volume atingiu a primeira colocação da lista de e-books do jornal The New York Times. Os outros dois - Fifty shades darker e Fifty shades freed - seguiram a tendência. Na semana passada, ocupavam o segundo e o terceiro lugares do jornal. Juntos, os três volumes venderam 250 mil cópias digitais nos Estados Unidos. Agora, os direitos de publicação da obra em papel nos Estados Unidos foram arrematados, após um concorrido leilão, pelo poderoso selo Vintage Books, da editora Knopf Doubleday. A edição inicial, prevista para 17 de abril , terá 750 mil exemplares. No Brasil, a editora Intrínseca acaba de comprar os direitos da obra e promete lançá-la ainda este ano. Os principais estúdios de Hollywood sonham em reviver o sucesso do filme 9 ¹/² semanas de amor, de 1986. Eles se reuniram na semana passada com a autora e sua agente, Valerie Hoskins, para as conversas iniciais. Fala-se em US$ 40 milhões pelo direito de filmagem.
O sucesso arrancou do anonimato E.J.James, uma discreta ex-produtora de televisão de Londres, de 48 anos, casada e mãe de dois filhos. Ela começou a carreira com um blog sobre a saga Crepúsculo, que exibia uma versão sexualmente explícita do romance entre a humana Bella e o vampiro Edward. A influência de Stephenie Meyer e, Fifty shades of Grey é tão evidente que a trilogia ganhou o apelido de Crepúsculo para adultas". Os críticos também se referem á trilogia erótica como "pornô para mães". "Mommy porn", em inglês. De um ponto de vista masculino severo, a história não passa de "bad porn" - pornografia ruim, repleta dos chavões mais batidos do gênero. As mulheres são magras, lânguidas e submissas, enquanto os homens são altos, apolíneos e dominam sua presas com olhares penetrantes. É tudo mais que previsível. As mulheres adoram.
A narradora heroína é a virgem Anastasia Steele, estudante universitária que, aos 22 anos, encontra o bilionário Christian Grey, de 27 (daí o trocadilho do título). Ela quer se entregar sem delongas, mas ele a obriga a assinar um documento com regras de conduta. Entre elas, viver em cárceres privado, banho diariamente (ok, a autora é europeia...), fazer ginástica quatro vezes por semana e acatar uma lista de atividades sexuais que só não incluem coprofilia (vá ao dicionário, por favor) e bestialidade. Anastasia, ouvindo sua "deusa interior", assina o documento e dá início á odisseia carnal. Numa espécie de apologia da submissão feminina temperada de perversões, Grey a transforma em mulher, ao passo que Anastasia o converte em macho dócil. O processo de domesticação do casal não tem animado a crítica americana. Há otimistas, como Lisa Shwarzbaun, da revista Entertainment Weekly "O livro tira proveito da portabilidade dos e-readers e tablets, que permitem a leitura discreta", diz ela. Isso é importante: os e-books podem ser comprados até pelo celular e lidos no metrô sem que ninguém perceba do que se trata. As leitoras não têm de se expor ao julgamento dos outros.
Muitas são as especulações sobre os motivos que levam as mulheres de hoje a consumir mais erotismo que os homens. Para Heloísa Seixas, estudiosa da sexualidade na literatura, a atitude feminina se deve á internet. "As pessoas anseiam por mostrar sua intimidade em público e consumir furiosamente a intimidade dos outros", diz ela. Segundo Nilza Rezende, autora de livros eróticos, as mulheres se interessam mais por sexo que os homens, e isso determina novos hábitos de leitura. "Elas vivem mais intensamente o sexo que os homens", diz Nilza. "A instabilidade das relações amorosas faz com que elas tentem resolver seus dilemas na cama -e, quando não conseguem, nos livros eróticos. Elas diferem dos homens porque querem falar". Ou ler. Outra diferença é o tipo de excitação que as leitoras buscam. "O homem considera erótico o aspecto genital, enquanto a mulher valoriza o caminho que produz a excitação e permite o sexo", diz o sexólogo Oswaldo Rodrigues Jr. "A leitura permite fantasiar o caminho romântico para as mulheres que sejam o sexo como objetivo. Para os homens, a literatura demora muito para chegar ao objetivo, o coito".
O romantismo pode ser um dos interesses das leitoras de Fifty shades mas certamente não é o principal. O sucesso do livro se explica sof Grey, sobretudo pela comoção que provoca na libido das leitoras. Donas de casa americanas afirmam que E.L. James ajudou a esquentar suas vidas conjugais. A nova-iorquina Michele Yogel, de 33 anos, devorou a trilogia, só interrompendo a leitura para levar o filho á escola. "Não consegui parar", disse ao jornal The New Times Post. "O livro está revitalizando a vida sexual de todo mundo no Upper East Side.". Ao que tudo indica, o efeito benéfico vai se propagar para além das fronteira do bairro chique de Nova York.
Com Danilo Venticinque.
Só para mulheres
A trilogia erótica
da autoria britânica E.L.
James quebra o tabu do
recato feminino e faz
sucesso nos e-books
Luiz Antônio Giron
Os homens sempre formaram o público dominante da literatura erótica. Até pouco tempo atrás, reinava o tabu segundo o qual mulher não podia ler histórias picantes, muito menos escrevê-las. Durante o século XX, autoras como Anaïs Nin, Catherine Milliet e Cassandra Rios expandiram as fronteiras da narrativa carregada de travessuras sexuais e arrebataram milhões de leitores. Mas o consumo do gênero ainda se dava meio ás escondidas, entre as mulheres mais curiosas e ousadas. Nos últimos tempos, isso mudou. O campo de ação do erotismo feminino cresceu por causa da internet e dos blogs. Nesses espaços, fãs de séries de livros ou filmes famosos publicam textos que sensualizam as tramas originais, mas usam como base os mesmos personagens. As redes sociais difundiram as existência desses blogs e ampliaram o público das leituras picantes. Agora, por causa das mulheres, o mercado vive o renascimento dos livros eróticos, consumidos de forma quase tão rápida quanto são escritos.Se faltavam uma autora e uma obra que coroassem a moda, ambas acabam de chegar. A trilogia Fifty shades of grey (Cinquenta matizes de cinza, sem tradução no Brasil), livro de estreia da britânica E.J.James, explodiu em vendas na internet. No início do mês, o primeiro volume atingiu a primeira colocação da lista de e-books do jornal The New York Times. Os outros dois - Fifty shades darker e Fifty shades freed - seguiram a tendência. Na semana passada, ocupavam o segundo e o terceiro lugares do jornal. Juntos, os três volumes venderam 250 mil cópias digitais nos Estados Unidos. Agora, os direitos de publicação da obra em papel nos Estados Unidos foram arrematados, após um concorrido leilão, pelo poderoso selo Vintage Books, da editora Knopf Doubleday. A edição inicial, prevista para 17 de abril , terá 750 mil exemplares. No Brasil, a editora Intrínseca acaba de comprar os direitos da obra e promete lançá-la ainda este ano. Os principais estúdios de Hollywood sonham em reviver o sucesso do filme 9 ¹/² semanas de amor, de 1986. Eles se reuniram na semana passada com a autora e sua agente, Valerie Hoskins, para as conversas iniciais. Fala-se em US$ 40 milhões pelo direito de filmagem.
O sucesso arrancou do anonimato E.J.James, uma discreta ex-produtora de televisão de Londres, de 48 anos, casada e mãe de dois filhos. Ela começou a carreira com um blog sobre a saga Crepúsculo, que exibia uma versão sexualmente explícita do romance entre a humana Bella e o vampiro Edward. A influência de Stephenie Meyer e, Fifty shades of Grey é tão evidente que a trilogia ganhou o apelido de Crepúsculo para adultas". Os críticos também se referem á trilogia erótica como "pornô para mães". "Mommy porn", em inglês. De um ponto de vista masculino severo, a história não passa de "bad porn" - pornografia ruim, repleta dos chavões mais batidos do gênero. As mulheres são magras, lânguidas e submissas, enquanto os homens são altos, apolíneos e dominam sua presas com olhares penetrantes. É tudo mais que previsível. As mulheres adoram.
A narradora heroína é a virgem Anastasia Steele, estudante universitária que, aos 22 anos, encontra o bilionário Christian Grey, de 27 (daí o trocadilho do título). Ela quer se entregar sem delongas, mas ele a obriga a assinar um documento com regras de conduta. Entre elas, viver em cárceres privado, banho diariamente (ok, a autora é europeia...), fazer ginástica quatro vezes por semana e acatar uma lista de atividades sexuais que só não incluem coprofilia (vá ao dicionário, por favor) e bestialidade. Anastasia, ouvindo sua "deusa interior", assina o documento e dá início á odisseia carnal. Numa espécie de apologia da submissão feminina temperada de perversões, Grey a transforma em mulher, ao passo que Anastasia o converte em macho dócil. O processo de domesticação do casal não tem animado a crítica americana. Há otimistas, como Lisa Shwarzbaun, da revista Entertainment Weekly "O livro tira proveito da portabilidade dos e-readers e tablets, que permitem a leitura discreta", diz ela. Isso é importante: os e-books podem ser comprados até pelo celular e lidos no metrô sem que ninguém perceba do que se trata. As leitoras não têm de se expor ao julgamento dos outros.
Muitas são as especulações sobre os motivos que levam as mulheres de hoje a consumir mais erotismo que os homens. Para Heloísa Seixas, estudiosa da sexualidade na literatura, a atitude feminina se deve á internet. "As pessoas anseiam por mostrar sua intimidade em público e consumir furiosamente a intimidade dos outros", diz ela. Segundo Nilza Rezende, autora de livros eróticos, as mulheres se interessam mais por sexo que os homens, e isso determina novos hábitos de leitura. "Elas vivem mais intensamente o sexo que os homens", diz Nilza. "A instabilidade das relações amorosas faz com que elas tentem resolver seus dilemas na cama -e, quando não conseguem, nos livros eróticos. Elas diferem dos homens porque querem falar". Ou ler. Outra diferença é o tipo de excitação que as leitoras buscam. "O homem considera erótico o aspecto genital, enquanto a mulher valoriza o caminho que produz a excitação e permite o sexo", diz o sexólogo Oswaldo Rodrigues Jr. "A leitura permite fantasiar o caminho romântico para as mulheres que sejam o sexo como objetivo. Para os homens, a literatura demora muito para chegar ao objetivo, o coito".
O romantismo pode ser um dos interesses das leitoras de Fifty shades mas certamente não é o principal. O sucesso do livro se explica sof Grey, sobretudo pela comoção que provoca na libido das leitoras. Donas de casa americanas afirmam que E.L. James ajudou a esquentar suas vidas conjugais. A nova-iorquina Michele Yogel, de 33 anos, devorou a trilogia, só interrompendo a leitura para levar o filho á escola. "Não consegui parar", disse ao jornal The New Times Post. "O livro está revitalizando a vida sexual de todo mundo no Upper East Side.". Ao que tudo indica, o efeito benéfico vai se propagar para além das fronteira do bairro chique de Nova York.
Com Danilo Venticinque.
O consumo como
forma de afeto
Um ponto comum nas divergentes opiniões de pais sobre os jovens é a crítica ao consumismo exagerado. Como entender esse comportamento á luz do que ocorreu com a sociedade brasileira nas últimas décadas? Para começar, há um encolhimento da família tradicional. Pais têm um ou dois filhos, muitas vezes criados por apenas um deles, já que quase 25% dos casamentos acabam antes dos dez anos. Mães e pais saem desde cedo de casa para trabalhar. E, encerrada a licença-maternidade, boa parte das mulheres (quase 70% delas trabalham fora de casa hoje) retorna sua lide diária de deslocamentos e dias extenuantes em escritórios, lojas e fábricas. Os pais continuam correndo atrás do pão nosso de cada dia.
Com quem ficam os filhos? Creches, escolas, babás (cada vez menos) se ocupam dos cuidados parentais iniciais. Ao chegar em casa, cansados do dia de trabalho, os pais, muitas vezes, recorrem á televisão, á internet e a jogos eletrônicos como forma de entreter as crias para poder descansar um pouco. Culpados pela sensação de que estão longe dos filhos, eles tentam, muitas vezes, compensar a distância com presentes. Não é á toa que, em pouco tempo, o quarto dos pequenos está abarrotado de brinquedos, bonecas, joguinhos e tudo o mais que estiver ao alcance do cartão de crédito.
Os pequenos percebem logo cedo que a birra, o choro, a reclamação e o protesto são boa moeda de troca na hora de conseguir o que querem. Pais com dificuldade de dizer "não" e filhos ávidos em ganhar resultam em jovens que consomem. advinha qual é um dos locais favoritos de entretenimento para eles? O shopping. Mas desde que possa levar alguma coisa de volta para casa. Em tempos de tecnologia, um dos principais focos de interesse são os smartphones, tablets, computadores e jogos. Mimos nada baratos.
Nossa sociedade também forneceu o molde para que essas transformações ocorressem. O valor do indivíduo passou a ser medido, numa escala maior do que outras, por aquilo que ele tem. O mérito da pessoa é avaliado hoje de uma maneira muito mais superficial, por aquilo que pode ser mostrado. E o consumo é a moeda forte nesse mercado.
Para além do bom ou do ruim, o fenômeno é um reflexo dos tempos que vivemos. Mas é importante lembrar que existem outras possibilidades e valores que podem e devem ser trabalhados com os filhos. Senão. correremos o risco de criar adultos insuportáveis. As escolhas profissionais, pessoais, amorosas podem vir influenciadas exclusivamente por esse viés consumista e individualista. A vida emocional pode ficar ainda mais solitária, pragmática e chata. Esse futuro é seu sonho de consumo?
Jairo Bouer é médico formado pela USP, com residência em psiquiatria. Trabalha com comunicação e saúde
forma de afeto
Um ponto comum nas divergentes opiniões de pais sobre os jovens é a crítica ao consumismo exagerado. Como entender esse comportamento á luz do que ocorreu com a sociedade brasileira nas últimas décadas? Para começar, há um encolhimento da família tradicional. Pais têm um ou dois filhos, muitas vezes criados por apenas um deles, já que quase 25% dos casamentos acabam antes dos dez anos. Mães e pais saem desde cedo de casa para trabalhar. E, encerrada a licença-maternidade, boa parte das mulheres (quase 70% delas trabalham fora de casa hoje) retorna sua lide diária de deslocamentos e dias extenuantes em escritórios, lojas e fábricas. Os pais continuam correndo atrás do pão nosso de cada dia.
Com quem ficam os filhos? Creches, escolas, babás (cada vez menos) se ocupam dos cuidados parentais iniciais. Ao chegar em casa, cansados do dia de trabalho, os pais, muitas vezes, recorrem á televisão, á internet e a jogos eletrônicos como forma de entreter as crias para poder descansar um pouco. Culpados pela sensação de que estão longe dos filhos, eles tentam, muitas vezes, compensar a distância com presentes. Não é á toa que, em pouco tempo, o quarto dos pequenos está abarrotado de brinquedos, bonecas, joguinhos e tudo o mais que estiver ao alcance do cartão de crédito.
Os pequenos percebem logo cedo que a birra, o choro, a reclamação e o protesto são boa moeda de troca na hora de conseguir o que querem. Pais com dificuldade de dizer "não" e filhos ávidos em ganhar resultam em jovens que consomem. advinha qual é um dos locais favoritos de entretenimento para eles? O shopping. Mas desde que possa levar alguma coisa de volta para casa. Em tempos de tecnologia, um dos principais focos de interesse são os smartphones, tablets, computadores e jogos. Mimos nada baratos.
Nossa sociedade também forneceu o molde para que essas transformações ocorressem. O valor do indivíduo passou a ser medido, numa escala maior do que outras, por aquilo que ele tem. O mérito da pessoa é avaliado hoje de uma maneira muito mais superficial, por aquilo que pode ser mostrado. E o consumo é a moeda forte nesse mercado.
Para além do bom ou do ruim, o fenômeno é um reflexo dos tempos que vivemos. Mas é importante lembrar que existem outras possibilidades e valores que podem e devem ser trabalhados com os filhos. Senão. correremos o risco de criar adultos insuportáveis. As escolhas profissionais, pessoais, amorosas podem vir influenciadas exclusivamente por esse viés consumista e individualista. A vida emocional pode ficar ainda mais solitária, pragmática e chata. Esse futuro é seu sonho de consumo?
Jairo Bouer é médico formado pela USP, com residência em psiquiatria. Trabalha com comunicação e saúde
quarta-feira, 6 de junho de 2012
"Não tive desapego"
O monja Coen conta como sofreu por tentar
se manter no comando de um templo zen-budista
"Conheci o zen-budismo quando era casada com um americano e morava na Califórnia. Apaixonei-me pela filosofia do zen-budismo e me envolvi muito com a comunidade. Depois , saí. Virei monja em Los Angeles e fui para um mosteiro feminino em Nagoia, no Japão. Passei 12 anos lá. Minha proposta era adotar o celibato, mas conheci um monge 18 anos mais novo do que eu e me casei. Ele me convenceu a voltar ao Brasil, pois dizia que era mais importante trazer o budismo para cá do que ficar num país que já é budista.
Em 1955, quando cheguei, minha ideia era comprar um sitio para a comunidade de zen-budismo. Mas o templo Busshinji, sede da nossa ordem na América do Sul, pediu que assumisse interinamente sua direção. O superior de lá tinha voltado para o Japão. Fiquei seis anos nessa função. Em 1997, presidi a Federação das Seitas Budistas. Foi um período de muitas alegrias e realizações.
Houve um movimento de membros antigos da comunidade para trazer alguém que fosse homem, japonês e mais velho para dirigir o templo. Foram três discriminações contra mim: eu era mulher, jovem para a posição e brasileira. Fiquei triste, porque havia criado uma comunidade á minha volta com brasileiros também, não só japoneses. Quando o monge do Japão chegou, ele disse que um templo não podia ter duas cabeças e eu tinha de sair. Mas eu não queria dividir a comunidade que estava se formando. Então, briguei para ficar mais tempo.
Algumas pessoas me caluniaram para que eu saísse. Foi uma coisa muito pesada, que me entristeceu. Uma vez um jornalista escreveu que eu era bispo. Na ocasião, não me importei, mas alguém enviou a reportagem para o Japão, dizendo que eu me passava por bispo. Fui até lá. Houve uma espécie de tribunal para me julgar. Levei uma carta do jornalista que fez o texto afirmando que eu não disse que era bispo, que ele se enganou. No Japão não aceitaram. Minha superiora, que foi a essa reunião, disse "Renuncie, não se defenda porque é muito feio o que estão fazendo. As pessoas vão receber isso de voltas, não porque vamos fazer uma vingança ou lhes desejar o mal, mas porque é do darma (para os budistas, darma é a lei que determina a realidade espiritual dos seres)".
Foi um erro ter insistido em ficar na direção do templo. A insistência fez com que eu conhecesse o lado sombrio de muita gente. Foram muitas decepções, desgastes e tristezas em alguns momentos. Demorei para me desapegar. É um equilíbrio sutil entender quando é hora de cuidar do que plantamos e quando desapegar.
Depois que saí de lá, um grupo de praticantes me seguiu, e surgiram inúmeras oportunidades de transmitir o budismo. Não há nada fixo. Não dá para segurar um cargo, uma posição. Acho que essa é a lição mais bonita. Quando você desiste de uma ideia fixa, você se abre para o Universo. Uma expressão que temos no budismo é: "Cai sete vezes, levanta oito. O chão onde você cai é o chão que lhe sustenta de pé. Não reclame da queda". Isso é o que aprendi. Hoje enxergo a saída do templo como uma oportunidade para lidar com os ensinamentos de Buda. Estava muito fechada na comunidade japonesa. Graças a tudo isso, tive a chance de levar o budismo para o Brasil inteiro."
Em depoimento a Margarida Telles
O monja Coen conta como sofreu por tentar
se manter no comando de um templo zen-budista
"Conheci o zen-budismo quando era casada com um americano e morava na Califórnia. Apaixonei-me pela filosofia do zen-budismo e me envolvi muito com a comunidade. Depois , saí. Virei monja em Los Angeles e fui para um mosteiro feminino em Nagoia, no Japão. Passei 12 anos lá. Minha proposta era adotar o celibato, mas conheci um monge 18 anos mais novo do que eu e me casei. Ele me convenceu a voltar ao Brasil, pois dizia que era mais importante trazer o budismo para cá do que ficar num país que já é budista.
Em 1955, quando cheguei, minha ideia era comprar um sitio para a comunidade de zen-budismo. Mas o templo Busshinji, sede da nossa ordem na América do Sul, pediu que assumisse interinamente sua direção. O superior de lá tinha voltado para o Japão. Fiquei seis anos nessa função. Em 1997, presidi a Federação das Seitas Budistas. Foi um período de muitas alegrias e realizações.
Houve um movimento de membros antigos da comunidade para trazer alguém que fosse homem, japonês e mais velho para dirigir o templo. Foram três discriminações contra mim: eu era mulher, jovem para a posição e brasileira. Fiquei triste, porque havia criado uma comunidade á minha volta com brasileiros também, não só japoneses. Quando o monge do Japão chegou, ele disse que um templo não podia ter duas cabeças e eu tinha de sair. Mas eu não queria dividir a comunidade que estava se formando. Então, briguei para ficar mais tempo.
Algumas pessoas me caluniaram para que eu saísse. Foi uma coisa muito pesada, que me entristeceu. Uma vez um jornalista escreveu que eu era bispo. Na ocasião, não me importei, mas alguém enviou a reportagem para o Japão, dizendo que eu me passava por bispo. Fui até lá. Houve uma espécie de tribunal para me julgar. Levei uma carta do jornalista que fez o texto afirmando que eu não disse que era bispo, que ele se enganou. No Japão não aceitaram. Minha superiora, que foi a essa reunião, disse "Renuncie, não se defenda porque é muito feio o que estão fazendo. As pessoas vão receber isso de voltas, não porque vamos fazer uma vingança ou lhes desejar o mal, mas porque é do darma (para os budistas, darma é a lei que determina a realidade espiritual dos seres)".
Foi um erro ter insistido em ficar na direção do templo. A insistência fez com que eu conhecesse o lado sombrio de muita gente. Foram muitas decepções, desgastes e tristezas em alguns momentos. Demorei para me desapegar. É um equilíbrio sutil entender quando é hora de cuidar do que plantamos e quando desapegar.
Depois que saí de lá, um grupo de praticantes me seguiu, e surgiram inúmeras oportunidades de transmitir o budismo. Não há nada fixo. Não dá para segurar um cargo, uma posição. Acho que essa é a lição mais bonita. Quando você desiste de uma ideia fixa, você se abre para o Universo. Uma expressão que temos no budismo é: "Cai sete vezes, levanta oito. O chão onde você cai é o chão que lhe sustenta de pé. Não reclame da queda". Isso é o que aprendi. Hoje enxergo a saída do templo como uma oportunidade para lidar com os ensinamentos de Buda. Estava muito fechada na comunidade japonesa. Graças a tudo isso, tive a chance de levar o budismo para o Brasil inteiro."
Em depoimento a Margarida Telles
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Os roqueiros da terceira idade
O Black Sabbath mostra que,
com uma vida mais saudável,
é possível fazer barulho depois de velho
André Sollitto
Cada show de rock exige um esforço considerável. Em duas horas, é possível gastar de 320 a 1.000 calorias, dependendo do nível de empolgação e das acrobacias feitas no palco. É o equivalente a correr durante duas horas na esteira. O inglês Ozzy Osbourne é um daqueles vocalistas que não ficam parados: corre, pula, joga baldes de água nos admiradores das primeiras fileiras e arria as calças. Nos tempos áureos de sua carreira, ele e tantos outros conseguiam energia para fazer apresentações usando drogas, como a cocaína. Pode funcionar aos 20 e poucos anos de idade, mas o que dizer de um roqueiro que já passou dos 60?
Em outras épocas, os quatros integrantes originais do grupo Black Sabbath já seriam hoje apenas pacatos senhores de respeito. Os tempos, porém mudaram. Ao anunciar, na semana passada, uma turnê mundial e a gravação de um disco inédito, Ozzy, de 62 anos, Tony Iommi, de 63, Geezer Butler, de 62, e Bill Ward, de 63, deram ainda mais energia ao rock feito por músicos avôs. Mais pesado que Rolling Stones ou Paul MacCartney e ainda munido de seus crucifixos usados para espantar os maus espíritos evocados em suas letras, o Black Sabbath faz o tipo de música que poucos associaram á terceira idade. O retorno do grupo deixou fãs de rock pesado exultantes. Reconhecido como pai do heavy metal, graças a uma série de poderosos álbuns lançados entre 1970 e 1975, o Black Sabbath não atrai apenas admiradores de sua geração. Sua música, diferentemente dos próprios roqueiros, poucos envelheceu e ainda serve de inspiração para estrelas da música atual e adolescentes que pegam na guitarra pela primeira vez. Garotos de 20 anos que nunca tiveram a chance de vê-los ao vivo (o último encontro dos quatro foi em 1977) consideram o anúncio um verdadeiro milagre do rock-proporcionado por verdadeiros milagres da medicina.
Quarenta anos atrás, o pessoal do Black Sabbath se entregava aos excessos da vida de artista. Décadas depois, a dieta das drogas foi substituída por legumes, verduras e execícios físicos. Em seu livro Confie em mim, eu sou o Dr. Ozzy (Benvirá, 264 páginas), Ozzy Osbourne diz que se tornou vegetariano e se matriculou num curso de pilates para compensar os anos de abusos. "Não há problema algum em passar algumas semanas enchendo a cara, mas passei a maior parte dos últimos 40 anos fazendo isso", escreve. Sua enorme resistência ao álcool e ás drogas já foi motivo de piada. "Sempre digo que, no fim dos tempos, só restarão as baratas, Ozzy e Keith Richards (o guitarristas dos Rolling Stones)", disse sua mulher, Sharon Osbourne. Ozzy jura que largou tudo, das bebidas alcoólicas aos remédios para dormir.
O baixista Geezer Butler mantém-se longe da carne vermelha desde a década de 1960. O baterista Bill Ward foi além: após um ataque cardíaco, em 1998, aderiu á dieta vegana, que exclui leite e seus derivados. Tony Iommi também dá aula de sobrevivência : antes da fama, perdeu a ponta de dois dedos em uma fábrica. Usando prótese, desenvolveu um estilo único de tocar guitarra. Abusou das drogas, mas se desintoxicou antes dos colegas. Em 2009, fez tratamento com células-tronco par continuar tocando. Hoje é um dos roqueiros mais bem conservados do circuito.
O Black Sabbath mostra que,
com uma vida mais saudável,
é possível fazer barulho depois de velho
André Sollitto
Cada show de rock exige um esforço considerável. Em duas horas, é possível gastar de 320 a 1.000 calorias, dependendo do nível de empolgação e das acrobacias feitas no palco. É o equivalente a correr durante duas horas na esteira. O inglês Ozzy Osbourne é um daqueles vocalistas que não ficam parados: corre, pula, joga baldes de água nos admiradores das primeiras fileiras e arria as calças. Nos tempos áureos de sua carreira, ele e tantos outros conseguiam energia para fazer apresentações usando drogas, como a cocaína. Pode funcionar aos 20 e poucos anos de idade, mas o que dizer de um roqueiro que já passou dos 60?
Em outras épocas, os quatros integrantes originais do grupo Black Sabbath já seriam hoje apenas pacatos senhores de respeito. Os tempos, porém mudaram. Ao anunciar, na semana passada, uma turnê mundial e a gravação de um disco inédito, Ozzy, de 62 anos, Tony Iommi, de 63, Geezer Butler, de 62, e Bill Ward, de 63, deram ainda mais energia ao rock feito por músicos avôs. Mais pesado que Rolling Stones ou Paul MacCartney e ainda munido de seus crucifixos usados para espantar os maus espíritos evocados em suas letras, o Black Sabbath faz o tipo de música que poucos associaram á terceira idade. O retorno do grupo deixou fãs de rock pesado exultantes. Reconhecido como pai do heavy metal, graças a uma série de poderosos álbuns lançados entre 1970 e 1975, o Black Sabbath não atrai apenas admiradores de sua geração. Sua música, diferentemente dos próprios roqueiros, poucos envelheceu e ainda serve de inspiração para estrelas da música atual e adolescentes que pegam na guitarra pela primeira vez. Garotos de 20 anos que nunca tiveram a chance de vê-los ao vivo (o último encontro dos quatro foi em 1977) consideram o anúncio um verdadeiro milagre do rock-proporcionado por verdadeiros milagres da medicina.
Quarenta anos atrás, o pessoal do Black Sabbath se entregava aos excessos da vida de artista. Décadas depois, a dieta das drogas foi substituída por legumes, verduras e execícios físicos. Em seu livro Confie em mim, eu sou o Dr. Ozzy (Benvirá, 264 páginas), Ozzy Osbourne diz que se tornou vegetariano e se matriculou num curso de pilates para compensar os anos de abusos. "Não há problema algum em passar algumas semanas enchendo a cara, mas passei a maior parte dos últimos 40 anos fazendo isso", escreve. Sua enorme resistência ao álcool e ás drogas já foi motivo de piada. "Sempre digo que, no fim dos tempos, só restarão as baratas, Ozzy e Keith Richards (o guitarristas dos Rolling Stones)", disse sua mulher, Sharon Osbourne. Ozzy jura que largou tudo, das bebidas alcoólicas aos remédios para dormir.
O baixista Geezer Butler mantém-se longe da carne vermelha desde a década de 1960. O baterista Bill Ward foi além: após um ataque cardíaco, em 1998, aderiu á dieta vegana, que exclui leite e seus derivados. Tony Iommi também dá aula de sobrevivência : antes da fama, perdeu a ponta de dois dedos em uma fábrica. Usando prótese, desenvolveu um estilo único de tocar guitarra. Abusou das drogas, mas se desintoxicou antes dos colegas. Em 2009, fez tratamento com células-tronco par continuar tocando. Hoje é um dos roqueiros mais bem conservados do circuito.
A estudiosidade, segundo Alberione
Com a palavra estudiosidade, padre Alberione não indica simplesmente a atividade intelectual, mas também aplicação, cuidado, diligência, empenho, paixão, entusiasmo, zelo e ainda outros significados.
A vida na Família Paulina é guiada por três dimensões, calibradas por uma modalidade. As dimensões são a piedade, o estudo e o apostolado. A modalidade, igualmente importante, que calibra o exercício de cada uma dessas dimensões é pobreza. O bem-aventurado Tiago Alberione adotou uma imagem muito significativa e prática para lembrar essas quatros referências da vida paulina: a imagem do carro. Piedade, estudo, apostolado e pobreza são as quatros rodas do carro paulino.
A pobreza, portanto, equilibra tempo e meios na prática da piedade, do estudo e do apostolado. Especificamente para a dimensão do estudo, o padre Alberione adotou como fator calibrador o termo "estudiosidade" e o chama de virtude. Para ele, estudiosidade "é a virtude que regula a nossa tendência a saber e também o nosso instinto natural. Por um lado, ela leva a aprender o que é necessário para a vida e para a felicidade eterna, e, por outro, essa virtude tempera e modera o instinto de curiosidade, para que nos mantenhamos no reto caminho e santifiquemos a mente". Afirma então que a estudiosidade é conexa ao mesmo tempo com a temperança e com a fortaleza, para podemos fazer todo o esforço necessário para aprender e para evitar os maus pensamentos, substituindo-os pelos bons.
Para essas considerações, o Padre Alberione se inspira no ensinamento tradicional da igreja e tem certamente como referência a Questão 166 da IIª-IIae (pronúncia: secunda secunde) da Suma Teológica de São Tomas de Aquino.
Mas imediatamente, dado o amplo uso e conhecimento do latim naquele tempo, com a palavra estudiosidade Alberione traduzia todos os matriz de "studium", que naquela língua não indica simplesmente a atividade intelectual, mas também aplicação, cuidado, diligência, empenho, paixão, entusiasmo, zelo e ainda outros significados.
Para dar um exemplo, podemos ter presente esta afirmação do livro Imitação de Cristo que era repetida constantemente no Seminário de Alba e, mais tarde, também por Alberione á Família Paulina: "Summum igitur studium nostrum sit in vita Jesu Christi mediatri". Na frase, o termo em questão não é traduzido por estudo, mas por empenho ou compromisso: "Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo".
Mas qual o motivo para praticar a estudiosidade com afinco?
Para Alberione, era o zelo pela glória de Deus e a salvação da humanidade, seguindo o exemplo de São Paulo Apóstolo..
Por esse zelo, ele afirma que, graças á estudiosidade, "há pessoas simples, mas, quanto ao espírito, quanto á ascética, sabem mais do que os doutos". Nesse sentido, aponta para Cura d'Ars, São João Maria Vianney, como exemplo de estudiosidade.
Na vida paulina, a estudiosidade deve ser aplicada a tempo pleno, para fazer com que todo conhecimento seja procurado e recebido não como mera informação, mas seja levado ao nível de formação pessoal e se torne um recurso vivo para ser comunicado na missão.
Assim, a estudiosidade passa a envolver a pessoa inteira, não só no horário dedicado diretamente humilde para ter a mente sempre aberta. Tora, então, os membros da Família Paulina motivados a crescer em todo conhecimento para serem comunicadores da Palavra de Deus, ou, em outras palavras, para cumprirem a missão de "Viver e dar Cristo, Caminho, Verdade e Vida".
Com a palavra estudiosidade, padre Alberione não indica simplesmente a atividade intelectual, mas também aplicação, cuidado, diligência, empenho, paixão, entusiasmo, zelo e ainda outros significados.
A vida na Família Paulina é guiada por três dimensões, calibradas por uma modalidade. As dimensões são a piedade, o estudo e o apostolado. A modalidade, igualmente importante, que calibra o exercício de cada uma dessas dimensões é pobreza. O bem-aventurado Tiago Alberione adotou uma imagem muito significativa e prática para lembrar essas quatros referências da vida paulina: a imagem do carro. Piedade, estudo, apostolado e pobreza são as quatros rodas do carro paulino.
A pobreza, portanto, equilibra tempo e meios na prática da piedade, do estudo e do apostolado. Especificamente para a dimensão do estudo, o padre Alberione adotou como fator calibrador o termo "estudiosidade" e o chama de virtude. Para ele, estudiosidade "é a virtude que regula a nossa tendência a saber e também o nosso instinto natural. Por um lado, ela leva a aprender o que é necessário para a vida e para a felicidade eterna, e, por outro, essa virtude tempera e modera o instinto de curiosidade, para que nos mantenhamos no reto caminho e santifiquemos a mente". Afirma então que a estudiosidade é conexa ao mesmo tempo com a temperança e com a fortaleza, para podemos fazer todo o esforço necessário para aprender e para evitar os maus pensamentos, substituindo-os pelos bons.
Para essas considerações, o Padre Alberione se inspira no ensinamento tradicional da igreja e tem certamente como referência a Questão 166 da IIª-IIae (pronúncia: secunda secunde) da Suma Teológica de São Tomas de Aquino.
Mas imediatamente, dado o amplo uso e conhecimento do latim naquele tempo, com a palavra estudiosidade Alberione traduzia todos os matriz de "studium", que naquela língua não indica simplesmente a atividade intelectual, mas também aplicação, cuidado, diligência, empenho, paixão, entusiasmo, zelo e ainda outros significados.
Para dar um exemplo, podemos ter presente esta afirmação do livro Imitação de Cristo que era repetida constantemente no Seminário de Alba e, mais tarde, também por Alberione á Família Paulina: "Summum igitur studium nostrum sit in vita Jesu Christi mediatri". Na frase, o termo em questão não é traduzido por estudo, mas por empenho ou compromisso: "Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo".
Mas qual o motivo para praticar a estudiosidade com afinco?
Para Alberione, era o zelo pela glória de Deus e a salvação da humanidade, seguindo o exemplo de São Paulo Apóstolo..
Por esse zelo, ele afirma que, graças á estudiosidade, "há pessoas simples, mas, quanto ao espírito, quanto á ascética, sabem mais do que os doutos". Nesse sentido, aponta para Cura d'Ars, São João Maria Vianney, como exemplo de estudiosidade.
Na vida paulina, a estudiosidade deve ser aplicada a tempo pleno, para fazer com que todo conhecimento seja procurado e recebido não como mera informação, mas seja levado ao nível de formação pessoal e se torne um recurso vivo para ser comunicado na missão.
Assim, a estudiosidade passa a envolver a pessoa inteira, não só no horário dedicado diretamente humilde para ter a mente sempre aberta. Tora, então, os membros da Família Paulina motivados a crescer em todo conhecimento para serem comunicadores da Palavra de Deus, ou, em outras palavras, para cumprirem a missão de "Viver e dar Cristo, Caminho, Verdade e Vida".
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