sexta-feira, 1 de junho de 2012

Os roqueiros da terceira idade
O Black Sabbath mostra que,
 com uma vida mais saudável, 
é possível fazer barulho depois de velho


André Sollitto
  Cada show de rock exige um esforço considerável. Em duas horas, é possível gastar de 320 a 1.000 calorias, dependendo do nível de empolgação e das acrobacias feitas no palco. É o equivalente a correr durante duas horas na esteira. O inglês Ozzy Osbourne é um daqueles vocalistas que não ficam parados: corre, pula, joga baldes de água nos admiradores das primeiras fileiras e arria as calças. Nos tempos áureos de sua carreira, ele e tantos outros conseguiam energia para fazer apresentações usando drogas, como a cocaína. Pode funcionar aos 20 e poucos anos de idade, mas o que dizer de um roqueiro que já passou dos 60?
  Em outras épocas, os quatros integrantes originais do grupo Black Sabbath já seriam hoje apenas pacatos senhores de respeito. Os tempos, porém mudaram. Ao anunciar, na semana passada, uma turnê mundial e a gravação de um disco inédito, Ozzy, de 62 anos, Tony Iommi, de 63, Geezer Butler, de 62, e Bill Ward, de 63, deram ainda mais energia ao rock feito por músicos avôs. Mais pesado que Rolling Stones ou Paul MacCartney e ainda munido de seus crucifixos usados para espantar os maus espíritos evocados em suas letras, o Black Sabbath faz o tipo de música que poucos associaram á terceira idade. O retorno do grupo deixou fãs  de rock pesado exultantes. Reconhecido como pai do heavy metal, graças a uma série de poderosos álbuns lançados entre 1970 e 1975, o Black Sabbath não atrai apenas admiradores de sua geração. Sua música, diferentemente dos próprios roqueiros, poucos envelheceu e ainda serve de inspiração para estrelas da música atual e adolescentes  que pegam na guitarra pela primeira vez. Garotos de 20 anos que nunca tiveram a chance de vê-los ao vivo (o último encontro dos quatro foi em 1977) consideram o anúncio um verdadeiro milagre do rock-proporcionado por verdadeiros milagres da medicina.
  Quarenta anos atrás, o pessoal do Black Sabbath se entregava aos excessos da vida de artista. Décadas depois, a dieta das drogas foi substituída por legumes, verduras e execícios físicos. Em seu livro Confie em mim, eu sou o Dr. Ozzy (Benvirá, 264 páginas), Ozzy Osbourne diz que se tornou vegetariano e se matriculou num curso de pilates para compensar os anos de abusos. "Não há problema algum em passar algumas semanas enchendo a cara, mas passei a maior parte dos últimos 40 anos fazendo isso", escreve. Sua enorme resistência ao álcool e ás drogas já foi motivo de piada. "Sempre digo que, no fim dos tempos, só restarão as baratas, Ozzy e Keith Richards (o guitarristas dos Rolling Stones)", disse sua mulher, Sharon Osbourne. Ozzy jura que largou tudo, das bebidas alcoólicas aos remédios para dormir.
  O baixista Geezer Butler  mantém-se longe da carne vermelha desde a década de 1960. O baterista Bill Ward foi além: após um ataque cardíaco, em 1998, aderiu á dieta vegana, que exclui leite e seus derivados. Tony Iommi também dá aula de sobrevivência : antes da fama, perdeu a ponta de dois dedos em uma fábrica. Usando prótese, desenvolveu um estilo único de tocar guitarra. Abusou das drogas, mas se desintoxicou antes dos colegas. Em 2009, fez tratamento com células-tronco par continuar tocando. Hoje é um dos roqueiros mais bem conservados do circuito.

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