domingo, 5 de agosto de 2012
Vida urgente
(...) é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar...
Ah, como esta vida é urgente!
... no entanto
eu gostava mesmo era de partir...
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.Mário Quintana+copy.jpg)
sexta-feira, 20 de julho de 2012
VIDA ÚTIL
Edição Flávia Yuri
Mitos e verdades sobre
a prática que tem
se espalhado pelas
academias do país
Bruno Segadilha
Tudo o que Madonna faz vira moda. Com o pilates, isso levou mais de dez anos para acontecer. Na década 1990. quando Madonna começou a mostrar sua incrível flexibilidade nos palcos. o público perguntava qual era técnica que garantia á cantora movimentos precisos e coluna impecavelmente reta, mesmo nas posições mais bizarras, como de cabeça para baixo e com as pernas abertas 180 graus. "É uma mistura de ioga e pilates", dizia ela.
Os benefícios prometidos pela ioga já eram conhecidos. A curiosidade girava em torno do método criado pelo alemão Joseph Pilates no começo do século passado. Baseado no movimentos dos animais e de crianças durante suas brincadeiras, Pilates - ou Papa Joe, como ficou conhecido nos Estados Unidos - criou uma série de exercícios com o objetivo de melhorar a própria saúde. Pilates sofreu de raquitismo e asma na infância. Com isso, chegou á idade adulta com um corpo franzino. Aos 32 anos, depois de adotar o método em si mesmo, passou a exibir um corpo de fazer inveja aos atletas mais bem treinados e a disseminar a prática entre amigos e conhecidos. A técnica envolve o fortalecimento da musculatura do abdome, que ele chamava de power house (ou casa de força, na tradução do inglês). A definição dos músculos, principalmente do abdome, a melhora na postura e o aumento da flexibilidade são alguns dos benefícios propagados pelos praticantes.
Estima-se que existam mais de 8 milhões de alunos de pilates nos Estados Unidos, de acordo com os dados da Sporting Goods Manufacturers Association, entidade que reúne os maiores fabricantes de artigos esportivos. No Brasil, são 8 mil estúdios de pilates e, por ano, surgem mais de 200 novas casas. Os números são baseados nas vendas dos maiores fabricantes de aparelhos no país.
A atriz Regiane Alves, de 33 anos, é adepta os exercícios há cinco anos. Ela conheceu o método durante uma aula de ioga, quando o professor chamou a atenção para sua postura excessivamente curvada. Animada com os resultados, não parou mais. "Melhorou tudo no meu corpo: a postura, meu alongamento e meus músculos, que ficaram mais definidos'.
Os alunos de pilates exibem uma série de benefícios objetivos da prática. Mas entre os argumentos dos entusiastas há alguns mitos. Há quem diga que o pilates evita crise de hérnia e faz crescer. O fortalecimento da musculatura do abdome pode diminuir o número de crises de hérnia, dependendo do local da lesão. Mas não há como garantir o fim de crises em qualquer pessoa, tampouco o fim de todas as crises. A reeducação postural pode ajudar alguém a recuperar centímetros que já tinha e estavam escondidos sob uma postura curva. Mas ele não adiciona tamanho á estrutura óssea. Entenda essas e outras questões sobre pilates.
Edição Flávia Yuri
Mitos e verdades sobre
a prática que tem
se espalhado pelas
academias do país
Bruno Segadilha
Tudo o que Madonna faz vira moda. Com o pilates, isso levou mais de dez anos para acontecer. Na década 1990. quando Madonna começou a mostrar sua incrível flexibilidade nos palcos. o público perguntava qual era técnica que garantia á cantora movimentos precisos e coluna impecavelmente reta, mesmo nas posições mais bizarras, como de cabeça para baixo e com as pernas abertas 180 graus. "É uma mistura de ioga e pilates", dizia ela.
Os benefícios prometidos pela ioga já eram conhecidos. A curiosidade girava em torno do método criado pelo alemão Joseph Pilates no começo do século passado. Baseado no movimentos dos animais e de crianças durante suas brincadeiras, Pilates - ou Papa Joe, como ficou conhecido nos Estados Unidos - criou uma série de exercícios com o objetivo de melhorar a própria saúde. Pilates sofreu de raquitismo e asma na infância. Com isso, chegou á idade adulta com um corpo franzino. Aos 32 anos, depois de adotar o método em si mesmo, passou a exibir um corpo de fazer inveja aos atletas mais bem treinados e a disseminar a prática entre amigos e conhecidos. A técnica envolve o fortalecimento da musculatura do abdome, que ele chamava de power house (ou casa de força, na tradução do inglês). A definição dos músculos, principalmente do abdome, a melhora na postura e o aumento da flexibilidade são alguns dos benefícios propagados pelos praticantes.
Estima-se que existam mais de 8 milhões de alunos de pilates nos Estados Unidos, de acordo com os dados da Sporting Goods Manufacturers Association, entidade que reúne os maiores fabricantes de artigos esportivos. No Brasil, são 8 mil estúdios de pilates e, por ano, surgem mais de 200 novas casas. Os números são baseados nas vendas dos maiores fabricantes de aparelhos no país.
A atriz Regiane Alves, de 33 anos, é adepta os exercícios há cinco anos. Ela conheceu o método durante uma aula de ioga, quando o professor chamou a atenção para sua postura excessivamente curvada. Animada com os resultados, não parou mais. "Melhorou tudo no meu corpo: a postura, meu alongamento e meus músculos, que ficaram mais definidos'.
Os alunos de pilates exibem uma série de benefícios objetivos da prática. Mas entre os argumentos dos entusiastas há alguns mitos. Há quem diga que o pilates evita crise de hérnia e faz crescer. O fortalecimento da musculatura do abdome pode diminuir o número de crises de hérnia, dependendo do local da lesão. Mas não há como garantir o fim de crises em qualquer pessoa, tampouco o fim de todas as crises. A reeducação postural pode ajudar alguém a recuperar centímetros que já tinha e estavam escondidos sob uma postura curva. Mas ele não adiciona tamanho á estrutura óssea. Entenda essas e outras questões sobre pilates.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Cisnes
Este cansaço de passar como que atado
a coisas que ainda não foram feitas,
parece o caminho incriado do cisne.E o morrer, esse desapegar-se
do fundo em que diariamente estamos,
seu tímido abandonar-se às águasque mansamente o acolhem e por serem
felizes e já passadas, onda a onda,
sob seu corpo se retraem;então, firme e tranqüilo,
com realeza e crescente segurança,
abandona-se o cisne ao deslizar.Rainer Maria Rilke
http://schsonia.blogspot.c
Não devemos ter medo de inventar seja o que for. Tudo o que existe em nós existe também na natureza, pois fazemos parte dela.
Pablo Picasso
Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.
Mahatma Gandhi
Começa por ti
Tua natureza divina não foi feita para ser aprisionada à sombra do sofrimento, fora do alcance de Deus, e sim para expandir, crescer, para assim, reencontrar sua real função.
És a flecha que tem por destino ser arremessada ao tronco do conhecimento e, se forças em direção contrária, cais em depressão, por negares ao teu ser a tua real necessidade que é a de estares livre, presente na tua realidade divina. Deves saber que as coisas não precisam acontecer nesta ordem.
Tens a opção em escolher novamente, sempre que sentires a ausência do teu coração em tuas decisões, ou seja, a ausência da paz de espírito.
Volta, recolhe teu ser no silêncio que habita
tua morada, e lá, começa por ti.
O que queres que não podes ter?
Nesta frase tão curta, reside todo o emaranhado de fios que te sufocam a cada dia.
Começa por ti e em ti.
Aprende a conhecer tuas reais necessidades
e começa por elas.
Uma a uma, purificando teu ser do sofrimento que tens te causado por todo este tempo.
Desacredita da tua má sorte e põe tua atenção, teu coração no conhecimento que está dentro de ti, em silêncio, a esperar-te para dar-te a paz,
a certeza de quem és.
" Para cultivar a sabedoria, é preciso força interior. Sem crescimento interno, é difícil conquistar a autoconfiança e a coragem necessárias. Sem elas, nossa vida se complica. O impossível torna-se possível com a força de vontade."
Dalai Lama
Tua natureza divina não foi feita para ser aprisionada à sombra do sofrimento, fora do alcance de Deus, e sim para expandir, crescer, para assim, reencontrar sua real função.
És a flecha que tem por destino ser arremessada ao tronco do conhecimento e, se forças em direção contrária, cais em depressão, por negares ao teu ser a tua real necessidade que é a de estares livre, presente na tua realidade divina. Deves saber que as coisas não precisam acontecer nesta ordem.
Tens a opção em escolher novamente, sempre que sentires a ausência do teu coração em tuas decisões, ou seja, a ausência da paz de espírito.
Volta, recolhe teu ser no silêncio que habita
tua morada, e lá, começa por ti.
O que queres que não podes ter?
Nesta frase tão curta, reside todo o emaranhado de fios que te sufocam a cada dia.
Começa por ti e em ti.
Aprende a conhecer tuas reais necessidades
e começa por elas.
Uma a uma, purificando teu ser do sofrimento que tens te causado por todo este tempo.
Desacredita da tua má sorte e põe tua atenção, teu coração no conhecimento que está dentro de ti, em silêncio, a esperar-te para dar-te a paz,
a certeza de quem és.
" Para cultivar a sabedoria, é preciso força interior. Sem crescimento interno, é difícil conquistar a autoconfiança e a coragem necessárias. Sem elas, nossa vida se complica. O impossível torna-se possível com a força de vontade."
A sua irritação
A sua irritação não solucionará problema algum...
As suas contrariedades não alteram a natureza das coisas...
Os seus desapontamentos não fazem o trabalho que só o tempo conseguirá realizar.
O seu mau humor não modifica a vida...
A sua dor não impedirá que o sol brilhe amanhã sobre os bons e os maus...
A sua tristeza não iluminará os caminhos...
O seu desânimo não edificará ninguém...
As suas lágrimas não substituem o suor que você deve verter em benefício da sua própria felicidade...
As suas reclamações, ainda mesmo afetivas, jamais acrescentarão nos outros um só grama de simpatia por você...
Não estrague o seu dia.
Aprenda a sabedoria divina,
A desculpar infinitamente, construindo e reconstruindo sempre...
Para o infinito bem!
Chico Xavier
As suas contrariedades não alteram a natureza das coisas...
Os seus desapontamentos não fazem o trabalho que só o tempo conseguirá realizar.
O seu mau humor não modifica a vida...
A sua dor não impedirá que o sol brilhe amanhã sobre os bons e os maus...
A sua tristeza não iluminará os caminhos...
O seu desânimo não edificará ninguém...
As suas lágrimas não substituem o suor que você deve verter em benefício da sua própria felicidade...
As suas reclamações, ainda mesmo afetivas, jamais acrescentarão nos outros um só grama de simpatia por você...
Não estrague o seu dia.
Aprenda a sabedoria divina,
A desculpar infinitamente, construindo e reconstruindo sempre...
Para o infinito bem!
Nós seres humanos
Nós seres humanos, estamos na
natureza para auxiliar o progresso
dos animais, na mesma proporção
que os anjos estão para nos auxiliar.
Portanto quem chuta ou maltrata um
animal é alguém que não aprendeu a
amar"
Chico Xavier
natureza para auxiliar o progresso
dos animais, na mesma proporção
que os anjos estão para nos auxiliar.
Portanto quem chuta ou maltrata um
animal é alguém que não aprendeu a
amar"
sexta-feira, 6 de julho de 2012
EM MEMÓRIA
Carlos Alberto Vieira Figueiredo
(1964-2012)
Roberto Lopes dos Santos
(1966-2012)
Os heróis brasileiros
no deserto de gelo
Peter Moon
O ser humano parece um frágil alienígena no ambiente hostil da Antártica. Quase todos os anos, seus caprichos cobram vidas. Na madrugada do sábado 25 de fevereiro, foi a vez de dois militares baianos, veteranos do Programa Antártico Brasileiro. Eles morreram combatendo o incêndio que destruiu a Estação Antártica Comandante Ferraz e paralisou o Programa Antártico Brasileiro.
O suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo, de 47 anos, era eletricista na base. Natural de Vitória da Conquista, entrou na Marinha em 1982. Estava 11 meses na Antártica. Em março, voltaria ao Brasil. Em 2012, completaria 30 anos de serviço e se aposentaria. "Era sua última missão", diz um de seus dois filhos, Vitor. "Meu pai tinha realizado o sonho de ir á Antártica. Ia se aposentar. Iríamos mudar para Aracaju, onde ele iria descansar."
O primeiro sargento Roberto Lopes dos Santos, de 45 anos, nasceu na cidadezinha de Salinas da margarida. Mudou-se ainda criança para Rio de Janeiro. Entrou na Marinha em 1985. Era eletricista e veterano da Antártica, onde participou de duas missões, em 2001 e 2007. Previa se aposentar em 2013. Santos era faixa preta e instrutor de judô. "Ele dava aulas de judô por prazer. Queria ensinar o esporte a crianças carentes", diz Nair, sua mulher e mãe de seus dois filhos.
Figueiredo e Santos integravam de combate a incêndio da Estação Antártica Comandante Ferraz, que começou a funcionar em 1984 na Ilha Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica. No momento do incêndio, a estação abrigava 59 pessoas. O fogo começou na "praça de máquinas", onde ficam os geradores de energia, movidos a um diesel anticongelante fabricado pela Petrobras.
Houve evacuação da estação. Figueiredo e Santos voltaram para tentar apagar o fogo - e sumiram. De acordo com o primeiro-tenente Pablo Tinoco, que estava no local, os dois usavam roupas, máscaras, cilindros de oxigênio e tinham cordas amarradas ao corpo, para ser puxados em caso de emergência. "Como demoravam a voltar, três homens tentaram ir atrás deles, mas a temperatura era alta demais. Um homem se arrastou para dentro da base, mas o comando mandou que voltasse. Não havia segurança".
A base foi abandonada. Os sobreviventes foram transferidos a uma base chilena, de onde voltaram ao Brasil. "Os corpos de Figueiredo e Santos desembarcaram no Rio de Janeiro. Foram recebidos com honras militares pelo vice-presidente Michel Temer e pelo comandante da Marinha Julio Soares de Moura. A presidente Dilma Rousseff, que estava no Recife, afirmou que vai reconstruir a base e chamou os dois de "heróis brasileiros". Morreram no cumprimento do dever.
O SACRIFÍCIO O suboficial Figueiredo e o primeiro-sargento Santos. Mortos no cumprimento do dever
Carlos Alberto Vieira Figueiredo
(1964-2012)
Roberto Lopes dos Santos
(1966-2012)
Os heróis brasileiros
no deserto de gelo
Peter Moon
O ser humano parece um frágil alienígena no ambiente hostil da Antártica. Quase todos os anos, seus caprichos cobram vidas. Na madrugada do sábado 25 de fevereiro, foi a vez de dois militares baianos, veteranos do Programa Antártico Brasileiro. Eles morreram combatendo o incêndio que destruiu a Estação Antártica Comandante Ferraz e paralisou o Programa Antártico Brasileiro.
O suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo, de 47 anos, era eletricista na base. Natural de Vitória da Conquista, entrou na Marinha em 1982. Estava 11 meses na Antártica. Em março, voltaria ao Brasil. Em 2012, completaria 30 anos de serviço e se aposentaria. "Era sua última missão", diz um de seus dois filhos, Vitor. "Meu pai tinha realizado o sonho de ir á Antártica. Ia se aposentar. Iríamos mudar para Aracaju, onde ele iria descansar."
O primeiro sargento Roberto Lopes dos Santos, de 45 anos, nasceu na cidadezinha de Salinas da margarida. Mudou-se ainda criança para Rio de Janeiro. Entrou na Marinha em 1985. Era eletricista e veterano da Antártica, onde participou de duas missões, em 2001 e 2007. Previa se aposentar em 2013. Santos era faixa preta e instrutor de judô. "Ele dava aulas de judô por prazer. Queria ensinar o esporte a crianças carentes", diz Nair, sua mulher e mãe de seus dois filhos.
Figueiredo e Santos integravam de combate a incêndio da Estação Antártica Comandante Ferraz, que começou a funcionar em 1984 na Ilha Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica. No momento do incêndio, a estação abrigava 59 pessoas. O fogo começou na "praça de máquinas", onde ficam os geradores de energia, movidos a um diesel anticongelante fabricado pela Petrobras.
Houve evacuação da estação. Figueiredo e Santos voltaram para tentar apagar o fogo - e sumiram. De acordo com o primeiro-tenente Pablo Tinoco, que estava no local, os dois usavam roupas, máscaras, cilindros de oxigênio e tinham cordas amarradas ao corpo, para ser puxados em caso de emergência. "Como demoravam a voltar, três homens tentaram ir atrás deles, mas a temperatura era alta demais. Um homem se arrastou para dentro da base, mas o comando mandou que voltasse. Não havia segurança".
A base foi abandonada. Os sobreviventes foram transferidos a uma base chilena, de onde voltaram ao Brasil. "Os corpos de Figueiredo e Santos desembarcaram no Rio de Janeiro. Foram recebidos com honras militares pelo vice-presidente Michel Temer e pelo comandante da Marinha Julio Soares de Moura. A presidente Dilma Rousseff, que estava no Recife, afirmou que vai reconstruir a base e chamou os dois de "heróis brasileiros". Morreram no cumprimento do dever.
O SACRIFÍCIO O suboficial Figueiredo e o primeiro-sargento Santos. Mortos no cumprimento do dever
sexta-feira, 29 de junho de 2012
O OBSERVADOR
DA VIDA
Enquanto se prepara
para escrever sua
última novela, Manoel
Carlos conta sua
história - e mostra
de onde retira os
dramas que apaixonam
os brasileiros
Martha Mendonça
Era nosso terceiro encontro. Nos dois primeiros, a conversa foi tão boa que já me dava por satisfeita. Mas, naquela terça-feira de março, o novelista Manoel Carlos me telefonou sugerindo um novo encontro no fim da tarde, na livraria Argumento, no Leblon. Quando cheguei, Maneco - como é chamado pelos - já estava lá, numa mesinha de canto, me olhando. A atriz Fernando Montenegro tem razão. "Os olhos de Maneco são como ventosas. Ele se expõe pouco encontro, Manoel Carlos pergunta mais de minha rotina de trabalho e como faço para trabalhar e criar os filhos. É bom ouvinte. Presa na armadilha, conto os detalhes, pensando se inspirarei algum personagem. "As melhores histórias estão aqui e ali", diz ele.
Famílias como a minha e a sua lhe interessam. Os laços de família - título de uma de suas novelas de maior sucesso - são a matéria-prima de suas histórias. Talvez por isso nenhum outro produto da dramaturgia mundial tenha tantas cenas de café da manhã, almoço e jantar quanto suas histórias. Nos lares se desenvolvem tanto as tramas mais trágicas quanto a discussão trivial sobre o aumento do pão. Os gêmeos separados no berço de Baila comigo, a mãe que troca de bebê com a filha que perdeu sua criança no parto de Por amor, a filha amada que fica tetraplégica em Viver a vida - todos esses dramas se misturam á crônica de questões íntimas como o vazio feminino, mulher que não consegue ser fiel, o homem que espera a mulher idealizada. Agora, quase aos 80 anos (que completará no ano que vem), Manoel Carlos diz que quer escrever só mais uma novela. Acompanhadas diariamente por 50 milhões de telespectadores, as novelas das 9 da noite da TV Globo, o horário mais nobre da televisão brasileira, saem da pena de poucos autores. Trata-se de trabalho cansativo, cercado de pressão por todos os lados. Nesse seleto time de autores - as "ararinhas-azuis", raras e em extinção, como o escritor Aguinaldo Silva definiu -, Maneco é o mais velho.
Ele entregará no fim deste mês a sinopse de seu último folhetim, previsto para ir ao ar em 2013. Será sua derradeira Helena, nome comum a toda as suas protagonistas desde Baila comigo, de 1981. Vivido por estrelas como Regina Duarte, Vera Fischer e Maitê Proença (leia a galeria nas páginas 84 e 85), elas são apresentadas ao público e amadas por ela a cada três anos, mais ou menos. Helena, ele costuma repetir, não foi nome de namorada, mulher, nem de alguém da família. "Escolhi por ser um nome forte. Uma curiosidade: em 1952, com menos de 20 anos, Maneco adaptou para a antiga TV Paulista o livro Helena, de Machado de Assis. Era teleteatro, representado ao vivo diante das Câmeras. "Essa Helena não está diretamente relacionada ás Helenas das novelas", diz ele. Agora, 60 anos depois, já escolheu a atriz que interpretará sua última Helena: Julia Lemmertz, filha de uma de suas mais queridas Helenas, Lilian Lemmertz, morta em 1986. Ela encabeçava o elenco de Baila comigo, primeira novela de Maneco no horário das 9.
Manoel Carlos ouve por vício profissional e, pela mesma razão, é também um narrador fascinante. É visível que narra suas histórias menos para impressionar que pelo prazer de lembrar dos acontecimentos e dos amigos - muitos já morreram. Se prende a detalhes saborosos, como o apelido dado a Chico Buarque e Nara Leão no programa Para ver a banda passar, de 1967, na TV Record. "Como dois tímidos poderiam estar á frente de uma atração? Eles eram ótimos, mas faltavam pouco e baixo. Ganharam o apelido de desanimadores de auditório", diz. Maneco também parece viajar no tempo ao falar sobre a morte de Jardel Filho, em 1983. Jardel era o galã de sua novela Sol de verão. Vivia um mecânico doce e rústico, par romântico da protagonista rica. O casal ganhara o Brasil, e a audiência ia muito bem. Num domingo de fevereiro, Maneco saiu de cada cedo para comprar os jornais. Em tempo pré-internet, passava numa banca de Ipanema e levava várias publicações. "os jornais são sempre fonte de enredos e personagens", afirma. Naquele dia, não chegou a ler nenhum. No rádio do carro, era anunciada a morte de "Jardel Filho, o Heitor de Sol de verão aos 56 anos, de infarto". Ficou catatônico por dez minutos, sem saber o que fazer. Uma hora depois, estava na de Jardel com os amigos Tony Ramos e Paulo Figueiredo, que também faziam parte do elenco. Antes que o corpo fosse velado, fizeram a barba do amigo morto."Estava grande. Jardel era bonito demais para se despedir daquele jeito"diz. Maneco não escreveu o fim da história. Não conseguiu. Foi substituído por Lauro Cesar Muniz.
Não seria a primeira nem a última vez que ele teria de lidar com a morte precoce de gente amada. Quando seus filhos ainda eram adolescentes, perderam a mãe, a ex-mulher Maria de Lourdes, artista plástica. Com apenas 36 anos, ela caiu da escada, em casa, quando saia para uma festa. Os dois haviam se casado quando ele tinha 19 anos, e ela 17. "Ela estava grávida e resolvemos ficar juntos", diz. O bebê que os unira, Manoel Carlos Filho, o Manequinho, morrera em março, três semanas antes de nossa primeira conversa, de infarto. Tinha 59 anos. "A morte de um filho é uma armadilha no fim de um corredor escuro", afirma Maneco. Uma armadilha que, para ele, veio duas vezes: em 1988, seu segundo filho, Ricardo, ator, morreu da aids. A filha Júlia, também atriz, deu dois sustos - duas meningites na infância, que também quase a levaram. Maneco tem ainda mais dois filhos - Maria Carolina, roteirista, de seu casamento com Cidinha Campos, e Pedro, irmão de Júlia, de seu atual casamento, com Bety Almeida. Instintivamente, lhe digo que com tantos dramas, sua vida poderia ser uma novela. Por trás dos aros grossos de seus óculos, seu olhar me diz que meu comentário nada tem de inédito.
DA VIDA
Enquanto se prepara
para escrever sua
última novela, Manoel
Carlos conta sua
história - e mostra
de onde retira os
dramas que apaixonam
os brasileiros
Martha Mendonça
Era nosso terceiro encontro. Nos dois primeiros, a conversa foi tão boa que já me dava por satisfeita. Mas, naquela terça-feira de março, o novelista Manoel Carlos me telefonou sugerindo um novo encontro no fim da tarde, na livraria Argumento, no Leblon. Quando cheguei, Maneco - como é chamado pelos - já estava lá, numa mesinha de canto, me olhando. A atriz Fernando Montenegro tem razão. "Os olhos de Maneco são como ventosas. Ele se expõe pouco encontro, Manoel Carlos pergunta mais de minha rotina de trabalho e como faço para trabalhar e criar os filhos. É bom ouvinte. Presa na armadilha, conto os detalhes, pensando se inspirarei algum personagem. "As melhores histórias estão aqui e ali", diz ele.
Famílias como a minha e a sua lhe interessam. Os laços de família - título de uma de suas novelas de maior sucesso - são a matéria-prima de suas histórias. Talvez por isso nenhum outro produto da dramaturgia mundial tenha tantas cenas de café da manhã, almoço e jantar quanto suas histórias. Nos lares se desenvolvem tanto as tramas mais trágicas quanto a discussão trivial sobre o aumento do pão. Os gêmeos separados no berço de Baila comigo, a mãe que troca de bebê com a filha que perdeu sua criança no parto de Por amor, a filha amada que fica tetraplégica em Viver a vida - todos esses dramas se misturam á crônica de questões íntimas como o vazio feminino, mulher que não consegue ser fiel, o homem que espera a mulher idealizada. Agora, quase aos 80 anos (que completará no ano que vem), Manoel Carlos diz que quer escrever só mais uma novela. Acompanhadas diariamente por 50 milhões de telespectadores, as novelas das 9 da noite da TV Globo, o horário mais nobre da televisão brasileira, saem da pena de poucos autores. Trata-se de trabalho cansativo, cercado de pressão por todos os lados. Nesse seleto time de autores - as "ararinhas-azuis", raras e em extinção, como o escritor Aguinaldo Silva definiu -, Maneco é o mais velho.
Ele entregará no fim deste mês a sinopse de seu último folhetim, previsto para ir ao ar em 2013. Será sua derradeira Helena, nome comum a toda as suas protagonistas desde Baila comigo, de 1981. Vivido por estrelas como Regina Duarte, Vera Fischer e Maitê Proença (leia a galeria nas páginas 84 e 85), elas são apresentadas ao público e amadas por ela a cada três anos, mais ou menos. Helena, ele costuma repetir, não foi nome de namorada, mulher, nem de alguém da família. "Escolhi por ser um nome forte. Uma curiosidade: em 1952, com menos de 20 anos, Maneco adaptou para a antiga TV Paulista o livro Helena, de Machado de Assis. Era teleteatro, representado ao vivo diante das Câmeras. "Essa Helena não está diretamente relacionada ás Helenas das novelas", diz ele. Agora, 60 anos depois, já escolheu a atriz que interpretará sua última Helena: Julia Lemmertz, filha de uma de suas mais queridas Helenas, Lilian Lemmertz, morta em 1986. Ela encabeçava o elenco de Baila comigo, primeira novela de Maneco no horário das 9.
Manoel Carlos ouve por vício profissional e, pela mesma razão, é também um narrador fascinante. É visível que narra suas histórias menos para impressionar que pelo prazer de lembrar dos acontecimentos e dos amigos - muitos já morreram. Se prende a detalhes saborosos, como o apelido dado a Chico Buarque e Nara Leão no programa Para ver a banda passar, de 1967, na TV Record. "Como dois tímidos poderiam estar á frente de uma atração? Eles eram ótimos, mas faltavam pouco e baixo. Ganharam o apelido de desanimadores de auditório", diz. Maneco também parece viajar no tempo ao falar sobre a morte de Jardel Filho, em 1983. Jardel era o galã de sua novela Sol de verão. Vivia um mecânico doce e rústico, par romântico da protagonista rica. O casal ganhara o Brasil, e a audiência ia muito bem. Num domingo de fevereiro, Maneco saiu de cada cedo para comprar os jornais. Em tempo pré-internet, passava numa banca de Ipanema e levava várias publicações. "os jornais são sempre fonte de enredos e personagens", afirma. Naquele dia, não chegou a ler nenhum. No rádio do carro, era anunciada a morte de "Jardel Filho, o Heitor de Sol de verão aos 56 anos, de infarto". Ficou catatônico por dez minutos, sem saber o que fazer. Uma hora depois, estava na de Jardel com os amigos Tony Ramos e Paulo Figueiredo, que também faziam parte do elenco. Antes que o corpo fosse velado, fizeram a barba do amigo morto."Estava grande. Jardel era bonito demais para se despedir daquele jeito"diz. Maneco não escreveu o fim da história. Não conseguiu. Foi substituído por Lauro Cesar Muniz.
Não seria a primeira nem a última vez que ele teria de lidar com a morte precoce de gente amada. Quando seus filhos ainda eram adolescentes, perderam a mãe, a ex-mulher Maria de Lourdes, artista plástica. Com apenas 36 anos, ela caiu da escada, em casa, quando saia para uma festa. Os dois haviam se casado quando ele tinha 19 anos, e ela 17. "Ela estava grávida e resolvemos ficar juntos", diz. O bebê que os unira, Manoel Carlos Filho, o Manequinho, morrera em março, três semanas antes de nossa primeira conversa, de infarto. Tinha 59 anos. "A morte de um filho é uma armadilha no fim de um corredor escuro", afirma Maneco. Uma armadilha que, para ele, veio duas vezes: em 1988, seu segundo filho, Ricardo, ator, morreu da aids. A filha Júlia, também atriz, deu dois sustos - duas meningites na infância, que também quase a levaram. Maneco tem ainda mais dois filhos - Maria Carolina, roteirista, de seu casamento com Cidinha Campos, e Pedro, irmão de Júlia, de seu atual casamento, com Bety Almeida. Instintivamente, lhe digo que com tantos dramas, sua vida poderia ser uma novela. Por trás dos aros grossos de seus óculos, seu olhar me diz que meu comentário nada tem de inédito.
''NÃO PENSAVA
EM ROUPAS.
TENTAVA MUDAR
O PAÍS''
Ela foi militante política nos anos 70, presa, torturada teve o pai assassinado por um militar. Anos depois, tornou-se ministra da Defesa e presidenta do Chile. Hoje, defende os direitos das mulheres na Organização das Nações Unidas e sabe, de perto, como é enfrentar preconceitos.
Por Marina Caruso
Na psicologia, a capacidade de superar traumas e sair fortalecido deles chama-se resiliência. A palavra, também usada para definir o potencial de um objeto de retomar sua forma depois de uma deformação, encaixa-se bem a ex-presidenta do Chile. Michelle Bachelet, 61 anos. Atual diretora-executiva da ONU Mulheres _ braço das Nações Unidas criado para combater a violência e a desigualdade de gênero _ Michelle expandiu os limites da resiliência. Transformou os próprios traumas em algo melhor para si e para os outros. Depois de ser presa e ter o pai, o brigadeiro Alberto Bachelet, assassinado durante a ditadura, formou-se em medicina e pós-graduou-se nas Forças Armadas e na Academia de Políticas Estratégicas do Chile. "Precisava disso para entender a ditadura que levou á morte 40 mil chilenos'', diz. Mãe de três filhos (Sebastian, 33, Francisca, 28 e Sofia 19)e separada duas vezes (uma do arquiteto Jorge Dávalos e outra do epidemiologista Aníbal Henriquez), Michelle foi a primeira mulher a ocupar o Ministério da Defesa e, depois, a Presidência da República em um país onde até pouco tempo atrás nem o divórcio era permitido.
De passagem pelo Brasil para a Terceira Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, ela conversou com MarieClaire em diferentes momentos; no Palácio do Planalto, em Brasília, no morro do Cantagalo, no Rio, e no hotel em que esteve hospedada. Em todos eles _ abraçando uma líder comunitária ou cumprimentando com beijinhos a presenta Dilma _ sorriu com gentileza. Prova de que é perfeitamente possível ser firme "sin perder la ternura".
EM ROUPAS.
TENTAVA MUDAR
O PAÍS''
Ela foi militante política nos anos 70, presa, torturada teve o pai assassinado por um militar. Anos depois, tornou-se ministra da Defesa e presidenta do Chile. Hoje, defende os direitos das mulheres na Organização das Nações Unidas e sabe, de perto, como é enfrentar preconceitos.
Por Marina Caruso
Na psicologia, a capacidade de superar traumas e sair fortalecido deles chama-se resiliência. A palavra, também usada para definir o potencial de um objeto de retomar sua forma depois de uma deformação, encaixa-se bem a ex-presidenta do Chile. Michelle Bachelet, 61 anos. Atual diretora-executiva da ONU Mulheres _ braço das Nações Unidas criado para combater a violência e a desigualdade de gênero _ Michelle expandiu os limites da resiliência. Transformou os próprios traumas em algo melhor para si e para os outros. Depois de ser presa e ter o pai, o brigadeiro Alberto Bachelet, assassinado durante a ditadura, formou-se em medicina e pós-graduou-se nas Forças Armadas e na Academia de Políticas Estratégicas do Chile. "Precisava disso para entender a ditadura que levou á morte 40 mil chilenos'', diz. Mãe de três filhos (Sebastian, 33, Francisca, 28 e Sofia 19)e separada duas vezes (uma do arquiteto Jorge Dávalos e outra do epidemiologista Aníbal Henriquez), Michelle foi a primeira mulher a ocupar o Ministério da Defesa e, depois, a Presidência da República em um país onde até pouco tempo atrás nem o divórcio era permitido.
De passagem pelo Brasil para a Terceira Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, ela conversou com MarieClaire em diferentes momentos; no Palácio do Planalto, em Brasília, no morro do Cantagalo, no Rio, e no hotel em que esteve hospedada. Em todos eles _ abraçando uma líder comunitária ou cumprimentando com beijinhos a presenta Dilma _ sorriu com gentileza. Prova de que é perfeitamente possível ser firme "sin perder la ternura".
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Porque a Alemanha
é diferente?
Os alemães estão no meio da crise europeia,
e mesmo assim sua
economia mantém
o vigor, a confiança
e o poder para afetar
o mundo, incluindo
o Brasil. Qual é
o segredo?
Marcos Coronato
O continente europeu continua instável. Períodos de relativa calmaria são logo interrompidos por sinais de que a crise econômica do continente pode se agravar ainda mais - e rapidamente. Como se anunciasse um grande terremoto para breve, o Velho Continente continua sofrendo com pequenos, mas regulares, tremores. Menos a Alemanha. A economia alemã, mesmo no centro da crise europeia e rumando para uma possível recessão em 2012 (após um belo crescimento de 3% em 2011), segue digna de confiança de investidores. Muitos se perguntaram por quê. Há historiadores que recuam ao anos 9 na busca da origem de uma força singular dessa nação; Guerreiro de diferentes tribos se agruparam na floresta fechada e lamacenta de Teutoburgo, no território que o Império Romano chamava de Germânia. Sob o comando do chefe Hermann (ou Armínio, na versão latina), eles se esconderam e emboscaram três legiões romanas, aniquilando 15 mil soldados. Os romanos recuaram e nunca mais tentaram seriamente conquistar a Germânia. Ali floresceriam lei e costumes muito característicos - e um país que viria a se chamar Alemanha.
A mais recente demonstração de confiança nos alemães foi dada na sexta-feira 13 de janeiro, quando a agência de classificação de risco Standar & Poor`s passou a considerar nove países europeus menos confiáveis como pagadores de dívidas, incluindo a França, sem tocar na nota que caracteriza a Alemanha como porto seguro econômico. Logo o início do ano, o país havia recebido outra deferência. A maior empresa de administração de recursos do mundo, a americina Black Rock, afirmou que a crise na Europa poderia piorar muito (um cenário que a empresa chama de Nêmesis, a deusa grega da punição e da vingança). E listou quais seriam os pouquíssimos investimentos seguros no mundo nesse caso: estocar ouro e emprestar dinheiro para alguns países, como Estados Unidos, o Japão e -a adivinhou? - a Alemanha.
Os efeitos e a reputação da economia animaram o país, nos últimos anos, a chamar por seu lugar de volta na política global. Desde a reunificação, em 1990, a Alemanha passou a atuar em frentes diversas - compôs a força internacional de combate aos talebans no Afeganistão, participou de negociações entre israelenses e palestinos e negocia com outras potências para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Mas o que fizeram os alemães para desfrutar esses status, mesmo sem resolver a crise europeia? Essa questão pode ser dividida em algumas perguntas-chave, reveladoras sobre o que aconteceu naquela parte do mundo desde que os germânicos impediram o avanço romano, 2 mil anos atrás.
é diferente?
Os alemães estão no meio da crise europeia,
e mesmo assim sua
economia mantém
o vigor, a confiança
e o poder para afetar
o mundo, incluindo
o Brasil. Qual é
o segredo?
Marcos Coronato
O continente europeu continua instável. Períodos de relativa calmaria são logo interrompidos por sinais de que a crise econômica do continente pode se agravar ainda mais - e rapidamente. Como se anunciasse um grande terremoto para breve, o Velho Continente continua sofrendo com pequenos, mas regulares, tremores. Menos a Alemanha. A economia alemã, mesmo no centro da crise europeia e rumando para uma possível recessão em 2012 (após um belo crescimento de 3% em 2011), segue digna de confiança de investidores. Muitos se perguntaram por quê. Há historiadores que recuam ao anos 9 na busca da origem de uma força singular dessa nação; Guerreiro de diferentes tribos se agruparam na floresta fechada e lamacenta de Teutoburgo, no território que o Império Romano chamava de Germânia. Sob o comando do chefe Hermann (ou Armínio, na versão latina), eles se esconderam e emboscaram três legiões romanas, aniquilando 15 mil soldados. Os romanos recuaram e nunca mais tentaram seriamente conquistar a Germânia. Ali floresceriam lei e costumes muito característicos - e um país que viria a se chamar Alemanha.
A mais recente demonstração de confiança nos alemães foi dada na sexta-feira 13 de janeiro, quando a agência de classificação de risco Standar & Poor`s passou a considerar nove países europeus menos confiáveis como pagadores de dívidas, incluindo a França, sem tocar na nota que caracteriza a Alemanha como porto seguro econômico. Logo o início do ano, o país havia recebido outra deferência. A maior empresa de administração de recursos do mundo, a americina Black Rock, afirmou que a crise na Europa poderia piorar muito (um cenário que a empresa chama de Nêmesis, a deusa grega da punição e da vingança). E listou quais seriam os pouquíssimos investimentos seguros no mundo nesse caso: estocar ouro e emprestar dinheiro para alguns países, como Estados Unidos, o Japão e -a adivinhou? - a Alemanha.
Os efeitos e a reputação da economia animaram o país, nos últimos anos, a chamar por seu lugar de volta na política global. Desde a reunificação, em 1990, a Alemanha passou a atuar em frentes diversas - compôs a força internacional de combate aos talebans no Afeganistão, participou de negociações entre israelenses e palestinos e negocia com outras potências para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Mas o que fizeram os alemães para desfrutar esses status, mesmo sem resolver a crise europeia? Essa questão pode ser dividida em algumas perguntas-chave, reveladoras sobre o que aconteceu naquela parte do mundo desde que os germânicos impediram o avanço romano, 2 mil anos atrás.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
LIVROS
Só para mulheres
A trilogia erótica
da autoria britânica E.L.
James quebra o tabu do
recato feminino e faz
sucesso nos e-books
Se faltavam uma autora e uma obra que coroassem a moda, ambas acabam de chegar. A trilogia Fifty shades of grey (Cinquenta matizes de cinza, sem tradução no Brasil), livro de estreia da britânica E.J.James, explodiu em vendas na internet. No início do mês, o primeiro volume atingiu a primeira colocação da lista de e-books do jornal The New York Times. Os outros dois - Fifty shades darker e Fifty shades freed - seguiram a tendência. Na semana passada, ocupavam o segundo e o terceiro lugares do jornal. Juntos, os três volumes venderam 250 mil cópias digitais nos Estados Unidos. Agora, os direitos de publicação da obra em papel nos Estados Unidos foram arrematados, após um concorrido leilão, pelo poderoso selo Vintage Books, da editora Knopf Doubleday. A edição inicial, prevista para 17 de abril , terá 750 mil exemplares. No Brasil, a editora Intrínseca acaba de comprar os direitos da obra e promete lançá-la ainda este ano. Os principais estúdios de Hollywood sonham em reviver o sucesso do filme 9 ¹/² semanas de amor, de 1986. Eles se reuniram na semana passada com a autora e sua agente, Valerie Hoskins, para as conversas iniciais. Fala-se em US$ 40 milhões pelo direito de filmagem.
O sucesso arrancou do anonimato E.J.James, uma discreta ex-produtora de televisão de Londres, de 48 anos, casada e mãe de dois filhos. Ela começou a carreira com um blog sobre a saga Crepúsculo, que exibia uma versão sexualmente explícita do romance entre a humana Bella e o vampiro Edward. A influência de Stephenie Meyer e, Fifty shades of Grey é tão evidente que a trilogia ganhou o apelido de Crepúsculo para adultas". Os críticos também se referem á trilogia erótica como "pornô para mães". "Mommy porn", em inglês. De um ponto de vista masculino severo, a história não passa de "bad porn" - pornografia ruim, repleta dos chavões mais batidos do gênero. As mulheres são magras, lânguidas e submissas, enquanto os homens são altos, apolíneos e dominam sua presas com olhares penetrantes. É tudo mais que previsível. As mulheres adoram.
A narradora heroína é a virgem Anastasia Steele, estudante universitária que, aos 22 anos, encontra o bilionário Christian Grey, de 27 (daí o trocadilho do título). Ela quer se entregar sem delongas, mas ele a obriga a assinar um documento com regras de conduta. Entre elas, viver em cárceres privado, banho diariamente (ok, a autora é europeia...), fazer ginástica quatro vezes por semana e acatar uma lista de atividades sexuais que só não incluem coprofilia (vá ao dicionário, por favor) e bestialidade. Anastasia, ouvindo sua "deusa interior", assina o documento e dá início á odisseia carnal. Numa espécie de apologia da submissão feminina temperada de perversões, Grey a transforma em mulher, ao passo que Anastasia o converte em macho dócil. O processo de domesticação do casal não tem animado a crítica americana. Há otimistas, como Lisa Shwarzbaun, da revista Entertainment Weekly "O livro tira proveito da portabilidade dos e-readers e tablets, que permitem a leitura discreta", diz ela. Isso é importante: os e-books podem ser comprados até pelo celular e lidos no metrô sem que ninguém perceba do que se trata. As leitoras não têm de se expor ao julgamento dos outros.
Muitas são as especulações sobre os motivos que levam as mulheres de hoje a consumir mais erotismo que os homens. Para Heloísa Seixas, estudiosa da sexualidade na literatura, a atitude feminina se deve á internet. "As pessoas anseiam por mostrar sua intimidade em público e consumir furiosamente a intimidade dos outros", diz ela. Segundo Nilza Rezende, autora de livros eróticos, as mulheres se interessam mais por sexo que os homens, e isso determina novos hábitos de leitura. "Elas vivem mais intensamente o sexo que os homens", diz Nilza. "A instabilidade das relações amorosas faz com que elas tentem resolver seus dilemas na cama -e, quando não conseguem, nos livros eróticos. Elas diferem dos homens porque querem falar". Ou ler. Outra diferença é o tipo de excitação que as leitoras buscam. "O homem considera erótico o aspecto genital, enquanto a mulher valoriza o caminho que produz a excitação e permite o sexo", diz o sexólogo Oswaldo Rodrigues Jr. "A leitura permite fantasiar o caminho romântico para as mulheres que sejam o sexo como objetivo. Para os homens, a literatura demora muito para chegar ao objetivo, o coito".
O romantismo pode ser um dos interesses das leitoras de Fifty shades mas certamente não é o principal. O sucesso do livro se explica sof Grey, sobretudo pela comoção que provoca na libido das leitoras. Donas de casa americanas afirmam que E.L. James ajudou a esquentar suas vidas conjugais. A nova-iorquina Michele Yogel, de 33 anos, devorou a trilogia, só interrompendo a leitura para levar o filho á escola. "Não consegui parar", disse ao jornal The New Times Post. "O livro está revitalizando a vida sexual de todo mundo no Upper East Side.". Ao que tudo indica, o efeito benéfico vai se propagar para além das fronteira do bairro chique de Nova York.
Com Danilo Venticinque.
Só para mulheres
A trilogia erótica
da autoria britânica E.L.
James quebra o tabu do
recato feminino e faz
sucesso nos e-books
Luiz Antônio Giron
Os homens sempre formaram o público dominante da literatura erótica. Até pouco tempo atrás, reinava o tabu segundo o qual mulher não podia ler histórias picantes, muito menos escrevê-las. Durante o século XX, autoras como Anaïs Nin, Catherine Milliet e Cassandra Rios expandiram as fronteiras da narrativa carregada de travessuras sexuais e arrebataram milhões de leitores. Mas o consumo do gênero ainda se dava meio ás escondidas, entre as mulheres mais curiosas e ousadas. Nos últimos tempos, isso mudou. O campo de ação do erotismo feminino cresceu por causa da internet e dos blogs. Nesses espaços, fãs de séries de livros ou filmes famosos publicam textos que sensualizam as tramas originais, mas usam como base os mesmos personagens. As redes sociais difundiram as existência desses blogs e ampliaram o público das leituras picantes. Agora, por causa das mulheres, o mercado vive o renascimento dos livros eróticos, consumidos de forma quase tão rápida quanto são escritos.Se faltavam uma autora e uma obra que coroassem a moda, ambas acabam de chegar. A trilogia Fifty shades of grey (Cinquenta matizes de cinza, sem tradução no Brasil), livro de estreia da britânica E.J.James, explodiu em vendas na internet. No início do mês, o primeiro volume atingiu a primeira colocação da lista de e-books do jornal The New York Times. Os outros dois - Fifty shades darker e Fifty shades freed - seguiram a tendência. Na semana passada, ocupavam o segundo e o terceiro lugares do jornal. Juntos, os três volumes venderam 250 mil cópias digitais nos Estados Unidos. Agora, os direitos de publicação da obra em papel nos Estados Unidos foram arrematados, após um concorrido leilão, pelo poderoso selo Vintage Books, da editora Knopf Doubleday. A edição inicial, prevista para 17 de abril , terá 750 mil exemplares. No Brasil, a editora Intrínseca acaba de comprar os direitos da obra e promete lançá-la ainda este ano. Os principais estúdios de Hollywood sonham em reviver o sucesso do filme 9 ¹/² semanas de amor, de 1986. Eles se reuniram na semana passada com a autora e sua agente, Valerie Hoskins, para as conversas iniciais. Fala-se em US$ 40 milhões pelo direito de filmagem.
O sucesso arrancou do anonimato E.J.James, uma discreta ex-produtora de televisão de Londres, de 48 anos, casada e mãe de dois filhos. Ela começou a carreira com um blog sobre a saga Crepúsculo, que exibia uma versão sexualmente explícita do romance entre a humana Bella e o vampiro Edward. A influência de Stephenie Meyer e, Fifty shades of Grey é tão evidente que a trilogia ganhou o apelido de Crepúsculo para adultas". Os críticos também se referem á trilogia erótica como "pornô para mães". "Mommy porn", em inglês. De um ponto de vista masculino severo, a história não passa de "bad porn" - pornografia ruim, repleta dos chavões mais batidos do gênero. As mulheres são magras, lânguidas e submissas, enquanto os homens são altos, apolíneos e dominam sua presas com olhares penetrantes. É tudo mais que previsível. As mulheres adoram.
A narradora heroína é a virgem Anastasia Steele, estudante universitária que, aos 22 anos, encontra o bilionário Christian Grey, de 27 (daí o trocadilho do título). Ela quer se entregar sem delongas, mas ele a obriga a assinar um documento com regras de conduta. Entre elas, viver em cárceres privado, banho diariamente (ok, a autora é europeia...), fazer ginástica quatro vezes por semana e acatar uma lista de atividades sexuais que só não incluem coprofilia (vá ao dicionário, por favor) e bestialidade. Anastasia, ouvindo sua "deusa interior", assina o documento e dá início á odisseia carnal. Numa espécie de apologia da submissão feminina temperada de perversões, Grey a transforma em mulher, ao passo que Anastasia o converte em macho dócil. O processo de domesticação do casal não tem animado a crítica americana. Há otimistas, como Lisa Shwarzbaun, da revista Entertainment Weekly "O livro tira proveito da portabilidade dos e-readers e tablets, que permitem a leitura discreta", diz ela. Isso é importante: os e-books podem ser comprados até pelo celular e lidos no metrô sem que ninguém perceba do que se trata. As leitoras não têm de se expor ao julgamento dos outros.
Muitas são as especulações sobre os motivos que levam as mulheres de hoje a consumir mais erotismo que os homens. Para Heloísa Seixas, estudiosa da sexualidade na literatura, a atitude feminina se deve á internet. "As pessoas anseiam por mostrar sua intimidade em público e consumir furiosamente a intimidade dos outros", diz ela. Segundo Nilza Rezende, autora de livros eróticos, as mulheres se interessam mais por sexo que os homens, e isso determina novos hábitos de leitura. "Elas vivem mais intensamente o sexo que os homens", diz Nilza. "A instabilidade das relações amorosas faz com que elas tentem resolver seus dilemas na cama -e, quando não conseguem, nos livros eróticos. Elas diferem dos homens porque querem falar". Ou ler. Outra diferença é o tipo de excitação que as leitoras buscam. "O homem considera erótico o aspecto genital, enquanto a mulher valoriza o caminho que produz a excitação e permite o sexo", diz o sexólogo Oswaldo Rodrigues Jr. "A leitura permite fantasiar o caminho romântico para as mulheres que sejam o sexo como objetivo. Para os homens, a literatura demora muito para chegar ao objetivo, o coito".
O romantismo pode ser um dos interesses das leitoras de Fifty shades mas certamente não é o principal. O sucesso do livro se explica sof Grey, sobretudo pela comoção que provoca na libido das leitoras. Donas de casa americanas afirmam que E.L. James ajudou a esquentar suas vidas conjugais. A nova-iorquina Michele Yogel, de 33 anos, devorou a trilogia, só interrompendo a leitura para levar o filho á escola. "Não consegui parar", disse ao jornal The New Times Post. "O livro está revitalizando a vida sexual de todo mundo no Upper East Side.". Ao que tudo indica, o efeito benéfico vai se propagar para além das fronteira do bairro chique de Nova York.
Com Danilo Venticinque.
O consumo como
forma de afeto
Um ponto comum nas divergentes opiniões de pais sobre os jovens é a crítica ao consumismo exagerado. Como entender esse comportamento á luz do que ocorreu com a sociedade brasileira nas últimas décadas? Para começar, há um encolhimento da família tradicional. Pais têm um ou dois filhos, muitas vezes criados por apenas um deles, já que quase 25% dos casamentos acabam antes dos dez anos. Mães e pais saem desde cedo de casa para trabalhar. E, encerrada a licença-maternidade, boa parte das mulheres (quase 70% delas trabalham fora de casa hoje) retorna sua lide diária de deslocamentos e dias extenuantes em escritórios, lojas e fábricas. Os pais continuam correndo atrás do pão nosso de cada dia.
Com quem ficam os filhos? Creches, escolas, babás (cada vez menos) se ocupam dos cuidados parentais iniciais. Ao chegar em casa, cansados do dia de trabalho, os pais, muitas vezes, recorrem á televisão, á internet e a jogos eletrônicos como forma de entreter as crias para poder descansar um pouco. Culpados pela sensação de que estão longe dos filhos, eles tentam, muitas vezes, compensar a distância com presentes. Não é á toa que, em pouco tempo, o quarto dos pequenos está abarrotado de brinquedos, bonecas, joguinhos e tudo o mais que estiver ao alcance do cartão de crédito.
Os pequenos percebem logo cedo que a birra, o choro, a reclamação e o protesto são boa moeda de troca na hora de conseguir o que querem. Pais com dificuldade de dizer "não" e filhos ávidos em ganhar resultam em jovens que consomem. advinha qual é um dos locais favoritos de entretenimento para eles? O shopping. Mas desde que possa levar alguma coisa de volta para casa. Em tempos de tecnologia, um dos principais focos de interesse são os smartphones, tablets, computadores e jogos. Mimos nada baratos.
Nossa sociedade também forneceu o molde para que essas transformações ocorressem. O valor do indivíduo passou a ser medido, numa escala maior do que outras, por aquilo que ele tem. O mérito da pessoa é avaliado hoje de uma maneira muito mais superficial, por aquilo que pode ser mostrado. E o consumo é a moeda forte nesse mercado.
Para além do bom ou do ruim, o fenômeno é um reflexo dos tempos que vivemos. Mas é importante lembrar que existem outras possibilidades e valores que podem e devem ser trabalhados com os filhos. Senão. correremos o risco de criar adultos insuportáveis. As escolhas profissionais, pessoais, amorosas podem vir influenciadas exclusivamente por esse viés consumista e individualista. A vida emocional pode ficar ainda mais solitária, pragmática e chata. Esse futuro é seu sonho de consumo?
Jairo Bouer é médico formado pela USP, com residência em psiquiatria. Trabalha com comunicação e saúde
forma de afeto
Um ponto comum nas divergentes opiniões de pais sobre os jovens é a crítica ao consumismo exagerado. Como entender esse comportamento á luz do que ocorreu com a sociedade brasileira nas últimas décadas? Para começar, há um encolhimento da família tradicional. Pais têm um ou dois filhos, muitas vezes criados por apenas um deles, já que quase 25% dos casamentos acabam antes dos dez anos. Mães e pais saem desde cedo de casa para trabalhar. E, encerrada a licença-maternidade, boa parte das mulheres (quase 70% delas trabalham fora de casa hoje) retorna sua lide diária de deslocamentos e dias extenuantes em escritórios, lojas e fábricas. Os pais continuam correndo atrás do pão nosso de cada dia.
Com quem ficam os filhos? Creches, escolas, babás (cada vez menos) se ocupam dos cuidados parentais iniciais. Ao chegar em casa, cansados do dia de trabalho, os pais, muitas vezes, recorrem á televisão, á internet e a jogos eletrônicos como forma de entreter as crias para poder descansar um pouco. Culpados pela sensação de que estão longe dos filhos, eles tentam, muitas vezes, compensar a distância com presentes. Não é á toa que, em pouco tempo, o quarto dos pequenos está abarrotado de brinquedos, bonecas, joguinhos e tudo o mais que estiver ao alcance do cartão de crédito.
Os pequenos percebem logo cedo que a birra, o choro, a reclamação e o protesto são boa moeda de troca na hora de conseguir o que querem. Pais com dificuldade de dizer "não" e filhos ávidos em ganhar resultam em jovens que consomem. advinha qual é um dos locais favoritos de entretenimento para eles? O shopping. Mas desde que possa levar alguma coisa de volta para casa. Em tempos de tecnologia, um dos principais focos de interesse são os smartphones, tablets, computadores e jogos. Mimos nada baratos.
Nossa sociedade também forneceu o molde para que essas transformações ocorressem. O valor do indivíduo passou a ser medido, numa escala maior do que outras, por aquilo que ele tem. O mérito da pessoa é avaliado hoje de uma maneira muito mais superficial, por aquilo que pode ser mostrado. E o consumo é a moeda forte nesse mercado.
Para além do bom ou do ruim, o fenômeno é um reflexo dos tempos que vivemos. Mas é importante lembrar que existem outras possibilidades e valores que podem e devem ser trabalhados com os filhos. Senão. correremos o risco de criar adultos insuportáveis. As escolhas profissionais, pessoais, amorosas podem vir influenciadas exclusivamente por esse viés consumista e individualista. A vida emocional pode ficar ainda mais solitária, pragmática e chata. Esse futuro é seu sonho de consumo?
Jairo Bouer é médico formado pela USP, com residência em psiquiatria. Trabalha com comunicação e saúde
quarta-feira, 6 de junho de 2012
"Não tive desapego"
O monja Coen conta como sofreu por tentar
se manter no comando de um templo zen-budista
"Conheci o zen-budismo quando era casada com um americano e morava na Califórnia. Apaixonei-me pela filosofia do zen-budismo e me envolvi muito com a comunidade. Depois , saí. Virei monja em Los Angeles e fui para um mosteiro feminino em Nagoia, no Japão. Passei 12 anos lá. Minha proposta era adotar o celibato, mas conheci um monge 18 anos mais novo do que eu e me casei. Ele me convenceu a voltar ao Brasil, pois dizia que era mais importante trazer o budismo para cá do que ficar num país que já é budista.
Em 1955, quando cheguei, minha ideia era comprar um sitio para a comunidade de zen-budismo. Mas o templo Busshinji, sede da nossa ordem na América do Sul, pediu que assumisse interinamente sua direção. O superior de lá tinha voltado para o Japão. Fiquei seis anos nessa função. Em 1997, presidi a Federação das Seitas Budistas. Foi um período de muitas alegrias e realizações.
Houve um movimento de membros antigos da comunidade para trazer alguém que fosse homem, japonês e mais velho para dirigir o templo. Foram três discriminações contra mim: eu era mulher, jovem para a posição e brasileira. Fiquei triste, porque havia criado uma comunidade á minha volta com brasileiros também, não só japoneses. Quando o monge do Japão chegou, ele disse que um templo não podia ter duas cabeças e eu tinha de sair. Mas eu não queria dividir a comunidade que estava se formando. Então, briguei para ficar mais tempo.
Algumas pessoas me caluniaram para que eu saísse. Foi uma coisa muito pesada, que me entristeceu. Uma vez um jornalista escreveu que eu era bispo. Na ocasião, não me importei, mas alguém enviou a reportagem para o Japão, dizendo que eu me passava por bispo. Fui até lá. Houve uma espécie de tribunal para me julgar. Levei uma carta do jornalista que fez o texto afirmando que eu não disse que era bispo, que ele se enganou. No Japão não aceitaram. Minha superiora, que foi a essa reunião, disse "Renuncie, não se defenda porque é muito feio o que estão fazendo. As pessoas vão receber isso de voltas, não porque vamos fazer uma vingança ou lhes desejar o mal, mas porque é do darma (para os budistas, darma é a lei que determina a realidade espiritual dos seres)".
Foi um erro ter insistido em ficar na direção do templo. A insistência fez com que eu conhecesse o lado sombrio de muita gente. Foram muitas decepções, desgastes e tristezas em alguns momentos. Demorei para me desapegar. É um equilíbrio sutil entender quando é hora de cuidar do que plantamos e quando desapegar.
Depois que saí de lá, um grupo de praticantes me seguiu, e surgiram inúmeras oportunidades de transmitir o budismo. Não há nada fixo. Não dá para segurar um cargo, uma posição. Acho que essa é a lição mais bonita. Quando você desiste de uma ideia fixa, você se abre para o Universo. Uma expressão que temos no budismo é: "Cai sete vezes, levanta oito. O chão onde você cai é o chão que lhe sustenta de pé. Não reclame da queda". Isso é o que aprendi. Hoje enxergo a saída do templo como uma oportunidade para lidar com os ensinamentos de Buda. Estava muito fechada na comunidade japonesa. Graças a tudo isso, tive a chance de levar o budismo para o Brasil inteiro."
Em depoimento a Margarida Telles
O monja Coen conta como sofreu por tentar
se manter no comando de um templo zen-budista
"Conheci o zen-budismo quando era casada com um americano e morava na Califórnia. Apaixonei-me pela filosofia do zen-budismo e me envolvi muito com a comunidade. Depois , saí. Virei monja em Los Angeles e fui para um mosteiro feminino em Nagoia, no Japão. Passei 12 anos lá. Minha proposta era adotar o celibato, mas conheci um monge 18 anos mais novo do que eu e me casei. Ele me convenceu a voltar ao Brasil, pois dizia que era mais importante trazer o budismo para cá do que ficar num país que já é budista.
Em 1955, quando cheguei, minha ideia era comprar um sitio para a comunidade de zen-budismo. Mas o templo Busshinji, sede da nossa ordem na América do Sul, pediu que assumisse interinamente sua direção. O superior de lá tinha voltado para o Japão. Fiquei seis anos nessa função. Em 1997, presidi a Federação das Seitas Budistas. Foi um período de muitas alegrias e realizações.
Houve um movimento de membros antigos da comunidade para trazer alguém que fosse homem, japonês e mais velho para dirigir o templo. Foram três discriminações contra mim: eu era mulher, jovem para a posição e brasileira. Fiquei triste, porque havia criado uma comunidade á minha volta com brasileiros também, não só japoneses. Quando o monge do Japão chegou, ele disse que um templo não podia ter duas cabeças e eu tinha de sair. Mas eu não queria dividir a comunidade que estava se formando. Então, briguei para ficar mais tempo.
Algumas pessoas me caluniaram para que eu saísse. Foi uma coisa muito pesada, que me entristeceu. Uma vez um jornalista escreveu que eu era bispo. Na ocasião, não me importei, mas alguém enviou a reportagem para o Japão, dizendo que eu me passava por bispo. Fui até lá. Houve uma espécie de tribunal para me julgar. Levei uma carta do jornalista que fez o texto afirmando que eu não disse que era bispo, que ele se enganou. No Japão não aceitaram. Minha superiora, que foi a essa reunião, disse "Renuncie, não se defenda porque é muito feio o que estão fazendo. As pessoas vão receber isso de voltas, não porque vamos fazer uma vingança ou lhes desejar o mal, mas porque é do darma (para os budistas, darma é a lei que determina a realidade espiritual dos seres)".
Foi um erro ter insistido em ficar na direção do templo. A insistência fez com que eu conhecesse o lado sombrio de muita gente. Foram muitas decepções, desgastes e tristezas em alguns momentos. Demorei para me desapegar. É um equilíbrio sutil entender quando é hora de cuidar do que plantamos e quando desapegar.
Depois que saí de lá, um grupo de praticantes me seguiu, e surgiram inúmeras oportunidades de transmitir o budismo. Não há nada fixo. Não dá para segurar um cargo, uma posição. Acho que essa é a lição mais bonita. Quando você desiste de uma ideia fixa, você se abre para o Universo. Uma expressão que temos no budismo é: "Cai sete vezes, levanta oito. O chão onde você cai é o chão que lhe sustenta de pé. Não reclame da queda". Isso é o que aprendi. Hoje enxergo a saída do templo como uma oportunidade para lidar com os ensinamentos de Buda. Estava muito fechada na comunidade japonesa. Graças a tudo isso, tive a chance de levar o budismo para o Brasil inteiro."
Em depoimento a Margarida Telles
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Os roqueiros da terceira idade
O Black Sabbath mostra que,
com uma vida mais saudável,
é possível fazer barulho depois de velho
André Sollitto
Cada show de rock exige um esforço considerável. Em duas horas, é possível gastar de 320 a 1.000 calorias, dependendo do nível de empolgação e das acrobacias feitas no palco. É o equivalente a correr durante duas horas na esteira. O inglês Ozzy Osbourne é um daqueles vocalistas que não ficam parados: corre, pula, joga baldes de água nos admiradores das primeiras fileiras e arria as calças. Nos tempos áureos de sua carreira, ele e tantos outros conseguiam energia para fazer apresentações usando drogas, como a cocaína. Pode funcionar aos 20 e poucos anos de idade, mas o que dizer de um roqueiro que já passou dos 60?
Em outras épocas, os quatros integrantes originais do grupo Black Sabbath já seriam hoje apenas pacatos senhores de respeito. Os tempos, porém mudaram. Ao anunciar, na semana passada, uma turnê mundial e a gravação de um disco inédito, Ozzy, de 62 anos, Tony Iommi, de 63, Geezer Butler, de 62, e Bill Ward, de 63, deram ainda mais energia ao rock feito por músicos avôs. Mais pesado que Rolling Stones ou Paul MacCartney e ainda munido de seus crucifixos usados para espantar os maus espíritos evocados em suas letras, o Black Sabbath faz o tipo de música que poucos associaram á terceira idade. O retorno do grupo deixou fãs de rock pesado exultantes. Reconhecido como pai do heavy metal, graças a uma série de poderosos álbuns lançados entre 1970 e 1975, o Black Sabbath não atrai apenas admiradores de sua geração. Sua música, diferentemente dos próprios roqueiros, poucos envelheceu e ainda serve de inspiração para estrelas da música atual e adolescentes que pegam na guitarra pela primeira vez. Garotos de 20 anos que nunca tiveram a chance de vê-los ao vivo (o último encontro dos quatro foi em 1977) consideram o anúncio um verdadeiro milagre do rock-proporcionado por verdadeiros milagres da medicina.
Quarenta anos atrás, o pessoal do Black Sabbath se entregava aos excessos da vida de artista. Décadas depois, a dieta das drogas foi substituída por legumes, verduras e execícios físicos. Em seu livro Confie em mim, eu sou o Dr. Ozzy (Benvirá, 264 páginas), Ozzy Osbourne diz que se tornou vegetariano e se matriculou num curso de pilates para compensar os anos de abusos. "Não há problema algum em passar algumas semanas enchendo a cara, mas passei a maior parte dos últimos 40 anos fazendo isso", escreve. Sua enorme resistência ao álcool e ás drogas já foi motivo de piada. "Sempre digo que, no fim dos tempos, só restarão as baratas, Ozzy e Keith Richards (o guitarristas dos Rolling Stones)", disse sua mulher, Sharon Osbourne. Ozzy jura que largou tudo, das bebidas alcoólicas aos remédios para dormir.
O baixista Geezer Butler mantém-se longe da carne vermelha desde a década de 1960. O baterista Bill Ward foi além: após um ataque cardíaco, em 1998, aderiu á dieta vegana, que exclui leite e seus derivados. Tony Iommi também dá aula de sobrevivência : antes da fama, perdeu a ponta de dois dedos em uma fábrica. Usando prótese, desenvolveu um estilo único de tocar guitarra. Abusou das drogas, mas se desintoxicou antes dos colegas. Em 2009, fez tratamento com células-tronco par continuar tocando. Hoje é um dos roqueiros mais bem conservados do circuito.
O Black Sabbath mostra que,
com uma vida mais saudável,
é possível fazer barulho depois de velho
André Sollitto
Cada show de rock exige um esforço considerável. Em duas horas, é possível gastar de 320 a 1.000 calorias, dependendo do nível de empolgação e das acrobacias feitas no palco. É o equivalente a correr durante duas horas na esteira. O inglês Ozzy Osbourne é um daqueles vocalistas que não ficam parados: corre, pula, joga baldes de água nos admiradores das primeiras fileiras e arria as calças. Nos tempos áureos de sua carreira, ele e tantos outros conseguiam energia para fazer apresentações usando drogas, como a cocaína. Pode funcionar aos 20 e poucos anos de idade, mas o que dizer de um roqueiro que já passou dos 60?
Em outras épocas, os quatros integrantes originais do grupo Black Sabbath já seriam hoje apenas pacatos senhores de respeito. Os tempos, porém mudaram. Ao anunciar, na semana passada, uma turnê mundial e a gravação de um disco inédito, Ozzy, de 62 anos, Tony Iommi, de 63, Geezer Butler, de 62, e Bill Ward, de 63, deram ainda mais energia ao rock feito por músicos avôs. Mais pesado que Rolling Stones ou Paul MacCartney e ainda munido de seus crucifixos usados para espantar os maus espíritos evocados em suas letras, o Black Sabbath faz o tipo de música que poucos associaram á terceira idade. O retorno do grupo deixou fãs de rock pesado exultantes. Reconhecido como pai do heavy metal, graças a uma série de poderosos álbuns lançados entre 1970 e 1975, o Black Sabbath não atrai apenas admiradores de sua geração. Sua música, diferentemente dos próprios roqueiros, poucos envelheceu e ainda serve de inspiração para estrelas da música atual e adolescentes que pegam na guitarra pela primeira vez. Garotos de 20 anos que nunca tiveram a chance de vê-los ao vivo (o último encontro dos quatro foi em 1977) consideram o anúncio um verdadeiro milagre do rock-proporcionado por verdadeiros milagres da medicina.
Quarenta anos atrás, o pessoal do Black Sabbath se entregava aos excessos da vida de artista. Décadas depois, a dieta das drogas foi substituída por legumes, verduras e execícios físicos. Em seu livro Confie em mim, eu sou o Dr. Ozzy (Benvirá, 264 páginas), Ozzy Osbourne diz que se tornou vegetariano e se matriculou num curso de pilates para compensar os anos de abusos. "Não há problema algum em passar algumas semanas enchendo a cara, mas passei a maior parte dos últimos 40 anos fazendo isso", escreve. Sua enorme resistência ao álcool e ás drogas já foi motivo de piada. "Sempre digo que, no fim dos tempos, só restarão as baratas, Ozzy e Keith Richards (o guitarristas dos Rolling Stones)", disse sua mulher, Sharon Osbourne. Ozzy jura que largou tudo, das bebidas alcoólicas aos remédios para dormir.
O baixista Geezer Butler mantém-se longe da carne vermelha desde a década de 1960. O baterista Bill Ward foi além: após um ataque cardíaco, em 1998, aderiu á dieta vegana, que exclui leite e seus derivados. Tony Iommi também dá aula de sobrevivência : antes da fama, perdeu a ponta de dois dedos em uma fábrica. Usando prótese, desenvolveu um estilo único de tocar guitarra. Abusou das drogas, mas se desintoxicou antes dos colegas. Em 2009, fez tratamento com células-tronco par continuar tocando. Hoje é um dos roqueiros mais bem conservados do circuito.
A estudiosidade, segundo Alberione
Com a palavra estudiosidade, padre Alberione não indica simplesmente a atividade intelectual, mas também aplicação, cuidado, diligência, empenho, paixão, entusiasmo, zelo e ainda outros significados.
A vida na Família Paulina é guiada por três dimensões, calibradas por uma modalidade. As dimensões são a piedade, o estudo e o apostolado. A modalidade, igualmente importante, que calibra o exercício de cada uma dessas dimensões é pobreza. O bem-aventurado Tiago Alberione adotou uma imagem muito significativa e prática para lembrar essas quatros referências da vida paulina: a imagem do carro. Piedade, estudo, apostolado e pobreza são as quatros rodas do carro paulino.
A pobreza, portanto, equilibra tempo e meios na prática da piedade, do estudo e do apostolado. Especificamente para a dimensão do estudo, o padre Alberione adotou como fator calibrador o termo "estudiosidade" e o chama de virtude. Para ele, estudiosidade "é a virtude que regula a nossa tendência a saber e também o nosso instinto natural. Por um lado, ela leva a aprender o que é necessário para a vida e para a felicidade eterna, e, por outro, essa virtude tempera e modera o instinto de curiosidade, para que nos mantenhamos no reto caminho e santifiquemos a mente". Afirma então que a estudiosidade é conexa ao mesmo tempo com a temperança e com a fortaleza, para podemos fazer todo o esforço necessário para aprender e para evitar os maus pensamentos, substituindo-os pelos bons.
Para essas considerações, o Padre Alberione se inspira no ensinamento tradicional da igreja e tem certamente como referência a Questão 166 da IIª-IIae (pronúncia: secunda secunde) da Suma Teológica de São Tomas de Aquino.
Mas imediatamente, dado o amplo uso e conhecimento do latim naquele tempo, com a palavra estudiosidade Alberione traduzia todos os matriz de "studium", que naquela língua não indica simplesmente a atividade intelectual, mas também aplicação, cuidado, diligência, empenho, paixão, entusiasmo, zelo e ainda outros significados.
Para dar um exemplo, podemos ter presente esta afirmação do livro Imitação de Cristo que era repetida constantemente no Seminário de Alba e, mais tarde, também por Alberione á Família Paulina: "Summum igitur studium nostrum sit in vita Jesu Christi mediatri". Na frase, o termo em questão não é traduzido por estudo, mas por empenho ou compromisso: "Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo".
Mas qual o motivo para praticar a estudiosidade com afinco?
Para Alberione, era o zelo pela glória de Deus e a salvação da humanidade, seguindo o exemplo de São Paulo Apóstolo..
Por esse zelo, ele afirma que, graças á estudiosidade, "há pessoas simples, mas, quanto ao espírito, quanto á ascética, sabem mais do que os doutos". Nesse sentido, aponta para Cura d'Ars, São João Maria Vianney, como exemplo de estudiosidade.
Na vida paulina, a estudiosidade deve ser aplicada a tempo pleno, para fazer com que todo conhecimento seja procurado e recebido não como mera informação, mas seja levado ao nível de formação pessoal e se torne um recurso vivo para ser comunicado na missão.
Assim, a estudiosidade passa a envolver a pessoa inteira, não só no horário dedicado diretamente humilde para ter a mente sempre aberta. Tora, então, os membros da Família Paulina motivados a crescer em todo conhecimento para serem comunicadores da Palavra de Deus, ou, em outras palavras, para cumprirem a missão de "Viver e dar Cristo, Caminho, Verdade e Vida".
Com a palavra estudiosidade, padre Alberione não indica simplesmente a atividade intelectual, mas também aplicação, cuidado, diligência, empenho, paixão, entusiasmo, zelo e ainda outros significados.
A vida na Família Paulina é guiada por três dimensões, calibradas por uma modalidade. As dimensões são a piedade, o estudo e o apostolado. A modalidade, igualmente importante, que calibra o exercício de cada uma dessas dimensões é pobreza. O bem-aventurado Tiago Alberione adotou uma imagem muito significativa e prática para lembrar essas quatros referências da vida paulina: a imagem do carro. Piedade, estudo, apostolado e pobreza são as quatros rodas do carro paulino.
A pobreza, portanto, equilibra tempo e meios na prática da piedade, do estudo e do apostolado. Especificamente para a dimensão do estudo, o padre Alberione adotou como fator calibrador o termo "estudiosidade" e o chama de virtude. Para ele, estudiosidade "é a virtude que regula a nossa tendência a saber e também o nosso instinto natural. Por um lado, ela leva a aprender o que é necessário para a vida e para a felicidade eterna, e, por outro, essa virtude tempera e modera o instinto de curiosidade, para que nos mantenhamos no reto caminho e santifiquemos a mente". Afirma então que a estudiosidade é conexa ao mesmo tempo com a temperança e com a fortaleza, para podemos fazer todo o esforço necessário para aprender e para evitar os maus pensamentos, substituindo-os pelos bons.
Para essas considerações, o Padre Alberione se inspira no ensinamento tradicional da igreja e tem certamente como referência a Questão 166 da IIª-IIae (pronúncia: secunda secunde) da Suma Teológica de São Tomas de Aquino.
Mas imediatamente, dado o amplo uso e conhecimento do latim naquele tempo, com a palavra estudiosidade Alberione traduzia todos os matriz de "studium", que naquela língua não indica simplesmente a atividade intelectual, mas também aplicação, cuidado, diligência, empenho, paixão, entusiasmo, zelo e ainda outros significados.
Para dar um exemplo, podemos ter presente esta afirmação do livro Imitação de Cristo que era repetida constantemente no Seminário de Alba e, mais tarde, também por Alberione á Família Paulina: "Summum igitur studium nostrum sit in vita Jesu Christi mediatri". Na frase, o termo em questão não é traduzido por estudo, mas por empenho ou compromisso: "Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo".
Mas qual o motivo para praticar a estudiosidade com afinco?
Para Alberione, era o zelo pela glória de Deus e a salvação da humanidade, seguindo o exemplo de São Paulo Apóstolo..
Por esse zelo, ele afirma que, graças á estudiosidade, "há pessoas simples, mas, quanto ao espírito, quanto á ascética, sabem mais do que os doutos". Nesse sentido, aponta para Cura d'Ars, São João Maria Vianney, como exemplo de estudiosidade.
Na vida paulina, a estudiosidade deve ser aplicada a tempo pleno, para fazer com que todo conhecimento seja procurado e recebido não como mera informação, mas seja levado ao nível de formação pessoal e se torne um recurso vivo para ser comunicado na missão.
Assim, a estudiosidade passa a envolver a pessoa inteira, não só no horário dedicado diretamente humilde para ter a mente sempre aberta. Tora, então, os membros da Família Paulina motivados a crescer em todo conhecimento para serem comunicadores da Palavra de Deus, ou, em outras palavras, para cumprirem a missão de "Viver e dar Cristo, Caminho, Verdade e Vida".
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Com a força da mente
Uma rede de academias para o cérebro prometer melhorar
habilidades como concentração e memória.
O que a ciência tem a dizer - e o que você pode usar
Primeiro, sinto incômodo por ser desafiada a encontrar uma resposta. Depois, o receio de não conseguir resolver o problemas: em seguida, frustração e cansaço por falhar nas primeiras tentativas. Por fim, satisfação e orgulho ao chegar ao resultado certo e perceber que estou mais afiada a cada problemas resolvido. Uma parte de mim se diverte, outra acha que vai ter enxaqueca á noite. Mas isso deve ser normal na primeira vez que se vai a uma academia para o cérebro.
O ambiente é o que se espera de um lugar criado para malhar os neurônios. Na entrada da academia, chamada Supera, no bairro paulistano de Santana, há estantes com livros. Pelas salas silenciosas, espalham-se jogos como a tangram (um conjunto de sete peças achatadas que se combinam para formar diferentes figuras) e a torre de hanoi (três pinos em que se deve encaixar até oito rodelas de diferentes tamanhos, seguindo regras determinadas). Ao chegar a cada aula, o aluno recebe um soroban, um dispositivo usado para afazer cálculos no Japão, há 400 anos e em uma versão mais antiga, há mais de 2 mil anos, na China. O soroban combina com o ambiente com despojado e os mais 40 tipos de jogos, todos de madeira, sem nenhum componente eletrônico.
Dependendo da habilidade cerebral que se queira exercitar, há atividades interativas. Numa delas, o grupo foi dividido entre os proibidos de falar, os de mãos amarradas e os de olhos vendados, todos trabalhando juntos para cumprir um objetivo.
A rede Supera de academias para o cérebro foi criada em 2006 pelo engenheiro Antônio Carlos Perpétuo, formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Desde então, mais de 10 mil pessoas frequentaram as aulas em 64 unidades, 63 delas franqueadas, espalhadas por 15 Estados. As turmas podem ter até 12 alunos, que não evoluem em conjunto - cada um segue seu próprio ritmo. "As atividades tiram o cérebro da zona de conforto,", diz Perpetuo. "O objetivo não é treinar matemática. É dar estímulos diferentes dos que estamos acostumados". A ideia de ginástica para o cérebro não é nova e parece fazer sentido. Mas funciona?
Perpetuo diz que funcionou para seu filho caçula, hoje com 16 anos. Aos 9, o menino tinha dificuldades para se concentrar na escola. O pai conta ter procurado ajuda de um psicólogo e de um psicopedagogo, sem chegar a um resultado satisfatório. Enquanto buscava orientação, conheceu o soroban. "Descobri que é uma ferramenta pedagógica fantástica, que poderia ajudar meu filho a desenvolver concentração e velocidade de raciocínio" diz.
As ONGS devem ser não governamentais
O passeio do ministro deo Trabalho, Carlos Lupi, a bordo de um avião indicado por um empresário com convênios suspeitos em sua parta teve uma utilidade. Chamou a atenção para um problema relativamente novo do Estado brasileiro: a presença de ONGs em funções que nada têm de não governamentais e que costumam ser usadas como cobertura para desvio de recursos públicos. Dos seis grandes escândalos do governo Dilma Rousseff desde a posse, três envolvem ONGs. Em várias administrações estaduais e prefeituras, vive-se uma situação semelhante.
É fácil entender o que aocntece. Num processo iniciado no governo de Fernando Henrique Cardoso, que não sofreu mudanças no governo Luiz Inácio Lula da Silva , a expansão das ONGs foi estimulada como argumento para reduzir o Estado e libertá-lo das pragas do empresguismo, da burocratização e do desperdício. A ideia era que, fora do governo, sustentadas pela sociedade civil - daí o nome "não governamentais", -, elas poderiam levar ideias frescas e soluções eficientes ao serviço público. Criadas, basicamente, para defender interesses privados, pressionado governantes e parlamentares por suas ideias, as ONGs ganharam outra identidade, temível do ponto de vista dos bons costumes, quando passaram a assumir tarefas executivas do Estado.
A partir de então, podiam não apenas defender projetos teóricos. Passaram a embolsar dinheiro para levá-los á vida prática, sem necessidades de enfrentar licitações públicas ou difícil caminho que a democracia oferece para ideias privadas sejam aceitas como políticas publica.. Como era previsível, o mundo das utopias e do trabalho voluntário rapídamente se transformou num universo de deliquentes e serviço superfaturado. Ficou difícil distinguir ONGs de "ONGs".
Nesse momento em Brasília, as ONGs e o governo Dilma discutem novas regras de funcionamento. É uma inciativa oportuna, em especial afastar as ONGs da condição de órgãos paralelos e descontrolados da administração pública. O dever de formular e executar as políticas públicas decididas pela maioria cabe, numa democracia, aos órgãos públicos. É para isso, afinal, que todos pagamos impostos.
O passeio do ministro deo Trabalho, Carlos Lupi, a bordo de um avião indicado por um empresário com convênios suspeitos em sua parta teve uma utilidade. Chamou a atenção para um problema relativamente novo do Estado brasileiro: a presença de ONGs em funções que nada têm de não governamentais e que costumam ser usadas como cobertura para desvio de recursos públicos. Dos seis grandes escândalos do governo Dilma Rousseff desde a posse, três envolvem ONGs. Em várias administrações estaduais e prefeituras, vive-se uma situação semelhante.
É fácil entender o que aocntece. Num processo iniciado no governo de Fernando Henrique Cardoso, que não sofreu mudanças no governo Luiz Inácio Lula da Silva , a expansão das ONGs foi estimulada como argumento para reduzir o Estado e libertá-lo das pragas do empresguismo, da burocratização e do desperdício. A ideia era que, fora do governo, sustentadas pela sociedade civil - daí o nome "não governamentais", -, elas poderiam levar ideias frescas e soluções eficientes ao serviço público. Criadas, basicamente, para defender interesses privados, pressionado governantes e parlamentares por suas ideias, as ONGs ganharam outra identidade, temível do ponto de vista dos bons costumes, quando passaram a assumir tarefas executivas do Estado.
A partir de então, podiam não apenas defender projetos teóricos. Passaram a embolsar dinheiro para levá-los á vida prática, sem necessidades de enfrentar licitações públicas ou difícil caminho que a democracia oferece para ideias privadas sejam aceitas como políticas publica.. Como era previsível, o mundo das utopias e do trabalho voluntário rapídamente se transformou num universo de deliquentes e serviço superfaturado. Ficou difícil distinguir ONGs de "ONGs".
Nesse momento em Brasília, as ONGs e o governo Dilma discutem novas regras de funcionamento. É uma inciativa oportuna, em especial afastar as ONGs da condição de órgãos paralelos e descontrolados da administração pública. O dever de formular e executar as políticas públicas decididas pela maioria cabe, numa democracia, aos órgãos públicos. É para isso, afinal, que todos pagamos impostos.
terça-feira, 29 de maio de 2012
BELEZA
MICROSCÓPICA
O alecrim (Rosmarinus officinalis) visto em detalhes microscópicos inspirou a artista plástica Cristina Libardi a criar imagens de rara beleza da planta. Essa ponte entre arte e tecnológia foi realizada com a ajuda do professor Francisco Tanaka, do Departamento de Fitopatologia e Nematologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo. foi quando a artista teve a oportunidade de conhecer a estrutura molecular do alecrim em imagens com até 30 mil vezes de aumento, obtidas por meio dos microscópios de luz e o eletrônico de varredura. A partir desses registros, ela trabalhou com softwares de manipulação de imagens, nas quais ressalta aspectos do relevo e da topografia da planta a partir do emprego de cores e da alteração de características como brilho e contraste. Imagens híbridas que se assemelham a rendilhados e outras formas inspiradas surgem como resultado da interlocução entre tecnologia e arte.
MICROSCÓPICA
O alecrim (Rosmarinus officinalis) visto em detalhes microscópicos inspirou a artista plástica Cristina Libardi a criar imagens de rara beleza da planta. Essa ponte entre arte e tecnológia foi realizada com a ajuda do professor Francisco Tanaka, do Departamento de Fitopatologia e Nematologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo. foi quando a artista teve a oportunidade de conhecer a estrutura molecular do alecrim em imagens com até 30 mil vezes de aumento, obtidas por meio dos microscópios de luz e o eletrônico de varredura. A partir desses registros, ela trabalhou com softwares de manipulação de imagens, nas quais ressalta aspectos do relevo e da topografia da planta a partir do emprego de cores e da alteração de características como brilho e contraste. Imagens híbridas que se assemelham a rendilhados e outras formas inspiradas surgem como resultado da interlocução entre tecnologia e arte.
No rastro
de um mito
da música
O cancelamento de
shows as lendas em
torno de João Gilberto
Mauricio Meireles
A lenda diz assim assim; como Buda, que atingiu a iluminação de-baixo de uma árvore, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira descobriu seu dom de tocar violão ensaiando embaixo de uma tamarindeiro. Mas tarde, foi a Bahia para o Rio de Janeiro tentar a vida como músico. Sem dinheiro e atormentado, deixou a cidade em 1956. Viajou para Porto Alegre e Diamantina. Reapareceu em 1958, quando sua versão de "Chega de saudade" mudou para sempre a música nacional, inaugurando a bossa nova. Como Cristo, cuja vida os evangelhos só contam a partir dos 30 anos, não se sabe o que aconteceu com João naqueles dois anos de sumiço. Só se sabe que ele criou algo belo. E viu que era bom.
A comparação bíblica é exagerada, mas assim os fãs de João Gilberto o tratam: com uma devoção quase religiosa. É o que mostra o livro Ho-ba-la-lá: á procura de João Gilberto (Companhia das Letras, 184 páginas, R$ 34), do alemã Marc Fischer, que conta sua peregrinação quase mística ao Brasil e as tentativas fracassadas de encontrar João, seu guru. Não conseguiu, claro.
Recluso em seu apartamento na Zona Sul do Rio, o homem que virou sinônimo da bossa nova quase não sai de casa e raramente recebe visitas. Aos 80 anos, radicalizou a misantropia, que, desde jovem, sempre foi uma de suas marcas. Na ausência do homem real, a multidão de fãs cultiva e amplia o anedotário sobre ele. Dizem que ele fala com gatos e com mortos, toca violão 12 horas por dia e ás vezes uiva para a lua. Também é devoto do guru indiano Paramahansa Yogananda (1853-1952), que jura ter aprendido a falar inglês milagrosamente.
Sua ausência da vida social gera mal-entendidos. No ano passado, um perfil com seu nome apareceu no Facebook. O dono da conta trocou mensagens com amigos de João, falava como ele e conhecia histórias íntimas. Mas quem conhece o cantor nega que fosse ele. Seu isolamento é tanto que João não foi á homenagem que Juazeiro, sua cidade natal, na Bahia, prestou a seus 80 anos. Com devoção quase religiosa, a cidade preserva a cama em que ele nasceu. Quando o santo abandona o mundo, as pessoas cultuam suas relíquias.
João tem o hábito conhecido de adiar shows - quando deveria ter iniciado a turnê comemorativa de seus 80 anos, marcada originalmente para estrear em 15 de novembro. O motivo foi um "problema de saúde". Comentou-se que, na verdade, o mito estaria deprimido Difícil saber. Mesmo quando aparece no dia e na hora marcados, joão ás vezes abandona a apresentação no meio. O ar-condicionado fez barulho, alguém suspirou na penúltima fila do teatro, a acústica precária do teatro desconcentrou o menestrel..."Eles quer que tudo aconteça, que o teto caia, tudo pegue fogo - só para ele não estar ali", diz uma de suas ex-mulheres, falando na inexpugnável timidez do artista.
Na impossibilidade de encontrar seu ídolo, Fischer - um jornalista e autor de romances que se suicidou em abril, aos 40 anos - seguiu suas pegadas. Comeu o prato preferido de João, descobriu um sósia, encontrou o banheiro onde ele tocava violão e conversou com seus amigos. Os depoimentos tratam João Gilberto como ser sobrenatural. ""É preciso tomar cuidado para que ele não entre na gente e tome posse, feito uma jiboia", diz a cantora Joyce, que conviveu com João nos anos 1970. Como última tentativa, Fischer mandou uma carta ao cantor. Pediu para encontrá-lo. Sem sucesso. Numa madrugada, acordou com o telefone tocando. Do outro lado da linha, alguém pôs "Ho-ba-la-lá" para tocar. Serie ele, o inalcançável?
Assim como João abandonou o público, o Brasil aparece ter abandonado o João. A turnê em comemoração a seus 80 anos demorou a vender todos os ingressos. Alguns estão encalhados. Há quem explique a dificuldade de vendas pelo preço, que varia R$ 500 a R$ 1.000. A vida está difícil para o homem, mas o mito continua em alta. "Esquisito quem, cara-pálida? As gerações que cultuaram vagabundos que fazem questão de ostentar limitações musicais vão achar alguém esquisito? João Gilberto é o mais cool dos cools", diz Caetano Veloso. Amém.
de um mito
da música
O cancelamento de
shows as lendas em
torno de João Gilberto
Mauricio Meireles
A lenda diz assim assim; como Buda, que atingiu a iluminação de-baixo de uma árvore, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira descobriu seu dom de tocar violão ensaiando embaixo de uma tamarindeiro. Mas tarde, foi a Bahia para o Rio de Janeiro tentar a vida como músico. Sem dinheiro e atormentado, deixou a cidade em 1956. Viajou para Porto Alegre e Diamantina. Reapareceu em 1958, quando sua versão de "Chega de saudade" mudou para sempre a música nacional, inaugurando a bossa nova. Como Cristo, cuja vida os evangelhos só contam a partir dos 30 anos, não se sabe o que aconteceu com João naqueles dois anos de sumiço. Só se sabe que ele criou algo belo. E viu que era bom.
A comparação bíblica é exagerada, mas assim os fãs de João Gilberto o tratam: com uma devoção quase religiosa. É o que mostra o livro Ho-ba-la-lá: á procura de João Gilberto (Companhia das Letras, 184 páginas, R$ 34), do alemã Marc Fischer, que conta sua peregrinação quase mística ao Brasil e as tentativas fracassadas de encontrar João, seu guru. Não conseguiu, claro.
Recluso em seu apartamento na Zona Sul do Rio, o homem que virou sinônimo da bossa nova quase não sai de casa e raramente recebe visitas. Aos 80 anos, radicalizou a misantropia, que, desde jovem, sempre foi uma de suas marcas. Na ausência do homem real, a multidão de fãs cultiva e amplia o anedotário sobre ele. Dizem que ele fala com gatos e com mortos, toca violão 12 horas por dia e ás vezes uiva para a lua. Também é devoto do guru indiano Paramahansa Yogananda (1853-1952), que jura ter aprendido a falar inglês milagrosamente.
Sua ausência da vida social gera mal-entendidos. No ano passado, um perfil com seu nome apareceu no Facebook. O dono da conta trocou mensagens com amigos de João, falava como ele e conhecia histórias íntimas. Mas quem conhece o cantor nega que fosse ele. Seu isolamento é tanto que João não foi á homenagem que Juazeiro, sua cidade natal, na Bahia, prestou a seus 80 anos. Com devoção quase religiosa, a cidade preserva a cama em que ele nasceu. Quando o santo abandona o mundo, as pessoas cultuam suas relíquias.
João tem o hábito conhecido de adiar shows - quando deveria ter iniciado a turnê comemorativa de seus 80 anos, marcada originalmente para estrear em 15 de novembro. O motivo foi um "problema de saúde". Comentou-se que, na verdade, o mito estaria deprimido Difícil saber. Mesmo quando aparece no dia e na hora marcados, joão ás vezes abandona a apresentação no meio. O ar-condicionado fez barulho, alguém suspirou na penúltima fila do teatro, a acústica precária do teatro desconcentrou o menestrel..."Eles quer que tudo aconteça, que o teto caia, tudo pegue fogo - só para ele não estar ali", diz uma de suas ex-mulheres, falando na inexpugnável timidez do artista.
Na impossibilidade de encontrar seu ídolo, Fischer - um jornalista e autor de romances que se suicidou em abril, aos 40 anos - seguiu suas pegadas. Comeu o prato preferido de João, descobriu um sósia, encontrou o banheiro onde ele tocava violão e conversou com seus amigos. Os depoimentos tratam João Gilberto como ser sobrenatural. ""É preciso tomar cuidado para que ele não entre na gente e tome posse, feito uma jiboia", diz a cantora Joyce, que conviveu com João nos anos 1970. Como última tentativa, Fischer mandou uma carta ao cantor. Pediu para encontrá-lo. Sem sucesso. Numa madrugada, acordou com o telefone tocando. Do outro lado da linha, alguém pôs "Ho-ba-la-lá" para tocar. Serie ele, o inalcançável?
Assim como João abandonou o público, o Brasil aparece ter abandonado o João. A turnê em comemoração a seus 80 anos demorou a vender todos os ingressos. Alguns estão encalhados. Há quem explique a dificuldade de vendas pelo preço, que varia R$ 500 a R$ 1.000. A vida está difícil para o homem, mas o mito continua em alta. "Esquisito quem, cara-pálida? As gerações que cultuaram vagabundos que fazem questão de ostentar limitações musicais vão achar alguém esquisito? João Gilberto é o mais cool dos cools", diz Caetano Veloso. Amém.
MENTE ABERTA
Um gênio do papel
e da tinta
David Mazzucchelli
levou dez anos
para criar uma obra
inovadora - ao largo
da revolução digital
Mariana Shirai
Hoje em dia, as inovações costumam chegar na forma de bits. Elas são criadas para celulares, computadores e tablets - instrumentos digitais que transformaram, radicalmente, o consumo de informação e arte. O quadrinista americano David Mazzucchelli fez difederente. Eles passou dez anos trabalhando numa obra totalmente inovadora - e totalmente concebida para o papel e a tinta. Seu romance gráfico (graphic novel) "Asterios Polyp (quadrinhos na Cia., 344 páginas, R$ 63), lançado em 2009 e que chega ao Brasil, foi aclamado como obra-prima pela crítica e recebeu os princípios prêmios da área, o Eisner e o Harvey. "Asterios Polyp é um divertimento deslumbrante e habilmente construído, ainda que ás vezes seja enlouquecedor e mesmo sufocante", escreveu Douglas Wolk, do jornal americano The New York Times.
O atraso da edição brasileira se deve principalmente ás negociações necessárias para preservar a visão original de Mazzucchelli. Ele acompanhou todo o processo de edição do volume, impresso na China em papel japonês reciclado. Os pedidos feitos por ele, do tipo certo de tinta e mudanças na tradução de Daniel Pellizzari, revelam algo de sua personalidade quase desconhecida. Mazzucchelli vive recluso, quase não dá entrevistas e raramente se deixa fotografar.
Aos 51 anos, ele virou uma lenda, que se apoia numa obra respeitada no mundo da cultura pop. Em parceria com Frank Miller (Sin city), na década de 1980, Mazzucchelli ajudou a deixar as HQs de super-heróis mais maduras. Também com Miller, imprimiu um estilo sombrio a personagens como Batman e Demolidor. As lendas do universo dos quadrinhos dizem que ele recusou propostas milionárias as para desenhar a série X-Men. Queria ser totalmente independente. O principal resultado dessa decisão veio depois de dez anos de trabalho, na forma de Asterios Polyp.
O livro narra as aventuras de um arquiteto renomado por seus livros teóricos, mas que nunca viu um projeto seus sair do papel. Arrogante e egocêntrico, aos 50 anos reavalia sua vida após o fim de um casamento e um incêndio que destrói seu apartamento. As idas e vindas entre passado e presente são entrecortadas por digressões que mostram a visão dos personagens sobre temas graves, como medos, religião ou tempo. "O livro é muito rico, contém muitas chamadas, por isso produziu tantas discussões na internet", diz o editor do volume nacional, André Conti.
Asterios Polyp encanta principalmente por seus atributos gráficos. Nenhuma decisão de Mazzuchchelli é gratuita. Cada personagem tem uma identidade visual particular. A cor, a forma e até a caligrafia usadas nas falas os distinguem - e isso ajuda o leitor a imaginar o som de suas vozes. O mundo de Asterios é composto de formas geométricas azuis. Hana, sua ex-mulher escultora, vê tudo a partir de risquinhos cruzados vermelhos, como num esboço. É encantador ver os universos dos dois, tão diversos, se mesclando no trecho em que eles se conhecem (foto ao lado0. Em tempos de tablets e livros eletrônicos, ter Asteri Polyp em mãos renova o prazer de leitura em papel.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
EM 2011, O INSTITUTO OLGA KOS COMPLETA QUATRO ANOS DE PAIO A PESSOA COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL. POR MEIO DO ESPORTE E, PRINCIPALMENTE, DE OFICINAS DE ARTE, PROMOVE A INCLUSÃO DAQUELES QUE COSTUMAM FICAR Á MARGEM DA SOCIEDADE
Faz 30 anos que o engenheiro Wolf Kos e sua mulher, pediatra Olga, iniciaram uma coleção de arte com mais de 1.200 obras. No acervo, telas de artistas como Lasar Segall, Salvador Dali, Tarsila do Amaral, Mira Schendel, Tomie Ohtake, Di Cavalcanti e Portinari, além de esculturas, gravuras e fotografias. Wolf trabalhava no ramo imobiliário e a vida andava bem - até que, em 2006, teve de passar por uma cirurgia cadíarca. Foi um procedimento simples, mas que trouxe uma sequela inesperada: uma infecção hospitalar que o deixou internado por seis meses e quase o matou. "Foram tempos difíceis". Lembra Olga. "Além de torcer por sua recuperação, a única coisa que podíamos fazer, enquanto estávamos no hospital, era assistir á televisão."
Mal sabiam eles, na época, que justamente a programação televisar mudaria para sempre a vida de ambos. Estava no ar, na Rede Globo, a novela Páginas da vida. Uma das questões centrais da trama era a rejeição da criança Clara, portadora de síndrome de Down. "O Wolf se envolveu com a história e decidiu que, caso ficasse bem de saúde, fundaria um instituto voltado á educação de pessoas como ela", diz Olga. Com dois filhos e dois netos - nenhum deles deficiente -, o casal acreditou na causa e cumpriu a promessa. Assim que ele teve alta, começou a procurar patrocinadores para ajudá-lo na empreitada. "Foi o primeiro desafio. Achei que seria simples - tenho muitos amigos que dirigem bancos e grandes empresas, mas poucos estavam realmente dispostos a investir", diz Wolf.
Foi aí que ele decidiu colocar sua coleção de obras á disposição. Sem pestanejar, doou todo o acervo para o recém-inaugurado instituto, para o qual deu o nome da mulher (ela abriu mão da profissão para capitanear o projeto). Ambos decidiram que utilizariam a arte para resgatar a autoestima e incluir socialmente pessoas com deficiência intelectual. "São ´crianças´ - independentemente de terem 10 ou 60 anos - á margem da sociedade", diz Wolf. "O que fazemos não é simplesmente dar um hobby. A ideia é ajuda-las a se desenvolver física e intelectualmente, para depois, se for o caso, poder inseri-las no mercado de trabalho."
O primeiro projeto do instituto chama-se Resgatando Cultura. O intuito é dar espaço para obras de artistas contemporâneos com a publicação de livros de arte. Wolf atraiu nomes como Gustavo Rosa, Isabelle Tuchband e Marysia Portinari. Em troca do livro publicado, cada um deles ministra oficinas de arte para as "crianças". "Os resultados foram impressionantes, com trabalhos maravilhosos", afirma Olga. Viviane Campagna, mãe de Alexandre, 17 anos conta que a concentração dele até melhorou após participar das aulas. "Ele sempre estudou em escolas regulares, mas não, gostava muito de artes. Seus trabalhos eram repetitivos. Agora, no Olga Kos, tudo mudou: ele está mais criativo e focado", diz. Ao fim de cada oficina, há um grande evento de lançamento do livro, exposição e venda de obras do artista e das crianças.
Parte da renda obtida com a venda dos livros e das obras (do artista e das crianças) vai para o instituto. Outras parte retorna para eles. "É muito importante, para o deficiente intelectual, sentir-se útil", diz Wolf. "Para algumas famílias, aquela pessoa por vezes representa um estorvo. A partir do momento em que ela consegue gerar uma renda, a dinâmica muda. Ela é visa com admiração." Pensando nisso de forma mais ampla, o Olga Kos foi responsável por idealizar o primeiro concurso público para pessos, com deficiência intelectual. Em parceria com o Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci), dois jovens foram contratados para exercer funções administrativas em 2009. Além de acompanhamento psicológico para eles, o instituto também aconselhou chefes e funcionários do conselho, para ajudá-los a lidar com pessoas com deficiência.
Outros projetos são o Pintou e Síndrome do Respeito e Karatê e Taekwondo para Deficientes Intelectuais. O primeiro é ligado ao Resgatando Cultura e contempla oficinas de pintura, escultura e fotografia. O segundo é um projeto esportivo que visa a resgatar a confiança e a autoestima. "Muitas delas são resguardadas pelas famílias e interagem pouco. Depois das aulas, elas melhoram insclusive as funções motoras - uma das que participaram mal conseguia se levantar. Hoje, ela anda normalmente", conta Wolf.
Quase 1.500 crianças - de organizações como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae-SP) e a Associação para o Desenvolvimento Integral do Dow (Adi) - já passaram pelas oficinas promovidas pelo Instituto Olga Kos. Os resultados, medidos por psicólogos e empresas especializadas em pesquisa, são excelentes: há melhoras significativas na fala, memória, expressão, linguagem e agressividade. "Fazemos questão de ter essa auditoria sempre presente, até para sabermos onde temos de melhorar", afirma Wolf. Tanto cuidado rendeu ao instituto uma dezena de prêmios, entre eles o de Cultura e Saúde, do Ministério da Cultura, e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo (CMDCA).
Faz 30 anos que o engenheiro Wolf Kos e sua mulher, pediatra Olga, iniciaram uma coleção de arte com mais de 1.200 obras. No acervo, telas de artistas como Lasar Segall, Salvador Dali, Tarsila do Amaral, Mira Schendel, Tomie Ohtake, Di Cavalcanti e Portinari, além de esculturas, gravuras e fotografias. Wolf trabalhava no ramo imobiliário e a vida andava bem - até que, em 2006, teve de passar por uma cirurgia cadíarca. Foi um procedimento simples, mas que trouxe uma sequela inesperada: uma infecção hospitalar que o deixou internado por seis meses e quase o matou. "Foram tempos difíceis". Lembra Olga. "Além de torcer por sua recuperação, a única coisa que podíamos fazer, enquanto estávamos no hospital, era assistir á televisão."
Mal sabiam eles, na época, que justamente a programação televisar mudaria para sempre a vida de ambos. Estava no ar, na Rede Globo, a novela Páginas da vida. Uma das questões centrais da trama era a rejeição da criança Clara, portadora de síndrome de Down. "O Wolf se envolveu com a história e decidiu que, caso ficasse bem de saúde, fundaria um instituto voltado á educação de pessoas como ela", diz Olga. Com dois filhos e dois netos - nenhum deles deficiente -, o casal acreditou na causa e cumpriu a promessa. Assim que ele teve alta, começou a procurar patrocinadores para ajudá-lo na empreitada. "Foi o primeiro desafio. Achei que seria simples - tenho muitos amigos que dirigem bancos e grandes empresas, mas poucos estavam realmente dispostos a investir", diz Wolf.
Foi aí que ele decidiu colocar sua coleção de obras á disposição. Sem pestanejar, doou todo o acervo para o recém-inaugurado instituto, para o qual deu o nome da mulher (ela abriu mão da profissão para capitanear o projeto). Ambos decidiram que utilizariam a arte para resgatar a autoestima e incluir socialmente pessoas com deficiência intelectual. "São ´crianças´ - independentemente de terem 10 ou 60 anos - á margem da sociedade", diz Wolf. "O que fazemos não é simplesmente dar um hobby. A ideia é ajuda-las a se desenvolver física e intelectualmente, para depois, se for o caso, poder inseri-las no mercado de trabalho."
O primeiro projeto do instituto chama-se Resgatando Cultura. O intuito é dar espaço para obras de artistas contemporâneos com a publicação de livros de arte. Wolf atraiu nomes como Gustavo Rosa, Isabelle Tuchband e Marysia Portinari. Em troca do livro publicado, cada um deles ministra oficinas de arte para as "crianças". "Os resultados foram impressionantes, com trabalhos maravilhosos", afirma Olga. Viviane Campagna, mãe de Alexandre, 17 anos conta que a concentração dele até melhorou após participar das aulas. "Ele sempre estudou em escolas regulares, mas não, gostava muito de artes. Seus trabalhos eram repetitivos. Agora, no Olga Kos, tudo mudou: ele está mais criativo e focado", diz. Ao fim de cada oficina, há um grande evento de lançamento do livro, exposição e venda de obras do artista e das crianças.
Parte da renda obtida com a venda dos livros e das obras (do artista e das crianças) vai para o instituto. Outras parte retorna para eles. "É muito importante, para o deficiente intelectual, sentir-se útil", diz Wolf. "Para algumas famílias, aquela pessoa por vezes representa um estorvo. A partir do momento em que ela consegue gerar uma renda, a dinâmica muda. Ela é visa com admiração." Pensando nisso de forma mais ampla, o Olga Kos foi responsável por idealizar o primeiro concurso público para pessos, com deficiência intelectual. Em parceria com o Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci), dois jovens foram contratados para exercer funções administrativas em 2009. Além de acompanhamento psicológico para eles, o instituto também aconselhou chefes e funcionários do conselho, para ajudá-los a lidar com pessoas com deficiência.
Outros projetos são o Pintou e Síndrome do Respeito e Karatê e Taekwondo para Deficientes Intelectuais. O primeiro é ligado ao Resgatando Cultura e contempla oficinas de pintura, escultura e fotografia. O segundo é um projeto esportivo que visa a resgatar a confiança e a autoestima. "Muitas delas são resguardadas pelas famílias e interagem pouco. Depois das aulas, elas melhoram insclusive as funções motoras - uma das que participaram mal conseguia se levantar. Hoje, ela anda normalmente", conta Wolf.
Quase 1.500 crianças - de organizações como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae-SP) e a Associação para o Desenvolvimento Integral do Dow (Adi) - já passaram pelas oficinas promovidas pelo Instituto Olga Kos. Os resultados, medidos por psicólogos e empresas especializadas em pesquisa, são excelentes: há melhoras significativas na fala, memória, expressão, linguagem e agressividade. "Fazemos questão de ter essa auditoria sempre presente, até para sabermos onde temos de melhorar", afirma Wolf. Tanto cuidado rendeu ao instituto uma dezena de prêmios, entre eles o de Cultura e Saúde, do Ministério da Cultura, e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo (CMDCA).
domingo, 27 de maio de 2012
PARCERIA ENTRE GIGANTES
A dinamarquesa Novozymes, produtora de enzimas industriais, e a brasileira Dedini Indústrias de Base, de Piracicaba, no interior paulista. fizeram uma parceria para dar continuidade á pesquisa e ao desenvolvimento de uma rota tecnológica para a produção de etanol celulósico no Brasil a partir da palha e do bagaço da cana-de-açúcar. Em fevereiro, a Novozymes apresentou a primeira enzina comercialmente viável para a produção de etanol celulósico. A Dedini, fabricante de equipamentos para o mercado sucroalcooleiro, desenvolveu um processo químico de hidrólise com ácido diluído utilizando um solvente de lignina. O objetivo da parceria é desenvolver um processo que utiliza a rota da hidrólise enzimática a partir de resíduo da cana e que resultará na implantação de uma usina de demonstração, integrada a uma refinaria. O Brasil é o maior produtor mundial de cana, com uma moagem superior a 600 milhões de toneladas ao ano.
A dinamarquesa Novozymes, produtora de enzimas industriais, e a brasileira Dedini Indústrias de Base, de Piracicaba, no interior paulista. fizeram uma parceria para dar continuidade á pesquisa e ao desenvolvimento de uma rota tecnológica para a produção de etanol celulósico no Brasil a partir da palha e do bagaço da cana-de-açúcar. Em fevereiro, a Novozymes apresentou a primeira enzina comercialmente viável para a produção de etanol celulósico. A Dedini, fabricante de equipamentos para o mercado sucroalcooleiro, desenvolveu um processo químico de hidrólise com ácido diluído utilizando um solvente de lignina. O objetivo da parceria é desenvolver um processo que utiliza a rota da hidrólise enzimática a partir de resíduo da cana e que resultará na implantação de uma usina de demonstração, integrada a uma refinaria. O Brasil é o maior produtor mundial de cana, com uma moagem superior a 600 milhões de toneladas ao ano.
TESTE NACIONAL
PARA H1N1
Um kit com tecnologia nacional que reúne em um produto os reagentes biomoleculares utilizados para detecção do vírus da influenza H1N1 está sendo fabricado por um consórcio formado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio do Instituto de Tecnologia em Imunobiológico, no Rio de Janeiro, e o Instituto Carlos Chagas, no Paraná, e o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar).
Os reagentes multiplicam o material genético do vírus, o RNA viral, tornando possível a sua identificação. No primeiro lote fora, fabricados 30 mil testes para detectar a doenças em pacientes internados com suspeita de gripo, em casos de surtos em comunidades fechadas e para investigar óbitos. Os laboratórios do consórcio têm capacidade para produzir 80 mil testes por mês. As principais vantagens do diagnóstico brasileiro em relação aos do exterior são o preço em média R$ 45,00 ante R$100,00 a R$ 150.00 dos importados - e o menor tempo de análise, que passou de oito para quadro horas.
PARA H1N1
Um kit com tecnologia nacional que reúne em um produto os reagentes biomoleculares utilizados para detecção do vírus da influenza H1N1 está sendo fabricado por um consórcio formado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio do Instituto de Tecnologia em Imunobiológico, no Rio de Janeiro, e o Instituto Carlos Chagas, no Paraná, e o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar).
Os reagentes multiplicam o material genético do vírus, o RNA viral, tornando possível a sua identificação. No primeiro lote fora, fabricados 30 mil testes para detectar a doenças em pacientes internados com suspeita de gripo, em casos de surtos em comunidades fechadas e para investigar óbitos. Os laboratórios do consórcio têm capacidade para produzir 80 mil testes por mês. As principais vantagens do diagnóstico brasileiro em relação aos do exterior são o preço em média R$ 45,00 ante R$100,00 a R$ 150.00 dos importados - e o menor tempo de análise, que passou de oito para quadro horas.
A tristeza de folhetim
Marlyse Meyer foi uma
notável pensadora
da cultura brasileira
Ela foi chamada carinhosamente pelo amigo Antonio Candido de "animal acadêmico', infelizmente uma espécie rara e em extinção. A morte de Marlyse Meyer (1924-2010) é a perda de uma notável pensadora da cultura brasileira, em seus altos e baixos estudos ( como ela, aliás, nomeou o grupo de pesquisa que criou na USP, em 1975), sempre ativa embora estivesse aposentada do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o que, no entanto, não a impediu de continuar a escrever e orientar discípulos. Deixou poucos mais ótimos livros em face da grandeza intelectual: Folhetim, uma história (Campanhia das Letras 1997), o seu maior prazer"; Pirineus, caiçaras; deambulações literárias (Unicampo, 1991); Surpresas do amor; a conversação no teatro de Marivaux, sua tese de doutorado (Edusp, 1993); Caminho do imaginário no Brasil (Edusp 1993); As mil faces de um herói canalha (UFRJ), 1988); e organizou Do Almanack aos Almanaques (Fundação Memorial da América Latina e Ateliê Editorial, 2001).
Entrou para a literatura, segundo dizia, "por falta de coragem", queria fazer história ou ciência sociais, mas a primeira "tinha desenho por causa dos mapas", e a outra "estatística". Num cursinho pré-vestibular conheceu Antonio Candido, uma amizade contínua e intensa. Conheceu o marido, o físico Jean Meyer, na Faculdade de Filosofia e acampanhou-o quando ele foi trabalhar na Europa, de início na Itália, onde ela estudou e deu aulas na Faculdade de Letras de Veneza, e depois na França, onde lecionou no Institut d`Estuded Luso-Brésiliennes. Estava para voltar para o Brasil nos anos 1960, mas o golpe militar e o AI-5 adiaram seu retorno, que só aconteceu em 1975. Viveu o 1968 na França e, ousada, pedia aos alunos que traduzissem panfletos para os operários portugueses da Renault.
Antonio Candido a queria na USP, mas ela acabou indo apara a Unicamp, em busca de um emprego rápido e necessário, tornando-se professora do Instituto de Artes por causa de sua tese sobre teatro. Adorava estudar "romances de segunda linha" e novelas (que sugeria aos alunos como forma de melhor entender os folhetins), aventurou-se a pesquisar candomblé e gostava de dizer, por causa de tudo isso, que "eu era pós-moderna e não sabia",. Ganhou o Prêmio Jabuti, em 1997, por seu livro Folhetim e ficou famosa ao traduzir Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, para o francês.
Marlyse Meyer foi uma
notável pensadora
da cultura brasileira
Ela foi chamada carinhosamente pelo amigo Antonio Candido de "animal acadêmico', infelizmente uma espécie rara e em extinção. A morte de Marlyse Meyer (1924-2010) é a perda de uma notável pensadora da cultura brasileira, em seus altos e baixos estudos ( como ela, aliás, nomeou o grupo de pesquisa que criou na USP, em 1975), sempre ativa embora estivesse aposentada do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o que, no entanto, não a impediu de continuar a escrever e orientar discípulos. Deixou poucos mais ótimos livros em face da grandeza intelectual: Folhetim, uma história (Campanhia das Letras 1997), o seu maior prazer"; Pirineus, caiçaras; deambulações literárias (Unicampo, 1991); Surpresas do amor; a conversação no teatro de Marivaux, sua tese de doutorado (Edusp, 1993); Caminho do imaginário no Brasil (Edusp 1993); As mil faces de um herói canalha (UFRJ), 1988); e organizou Do Almanack aos Almanaques (Fundação Memorial da América Latina e Ateliê Editorial, 2001).
Entrou para a literatura, segundo dizia, "por falta de coragem", queria fazer história ou ciência sociais, mas a primeira "tinha desenho por causa dos mapas", e a outra "estatística". Num cursinho pré-vestibular conheceu Antonio Candido, uma amizade contínua e intensa. Conheceu o marido, o físico Jean Meyer, na Faculdade de Filosofia e acampanhou-o quando ele foi trabalhar na Europa, de início na Itália, onde ela estudou e deu aulas na Faculdade de Letras de Veneza, e depois na França, onde lecionou no Institut d`Estuded Luso-Brésiliennes. Estava para voltar para o Brasil nos anos 1960, mas o golpe militar e o AI-5 adiaram seu retorno, que só aconteceu em 1975. Viveu o 1968 na França e, ousada, pedia aos alunos que traduzissem panfletos para os operários portugueses da Renault.
Antonio Candido a queria na USP, mas ela acabou indo apara a Unicamp, em busca de um emprego rápido e necessário, tornando-se professora do Instituto de Artes por causa de sua tese sobre teatro. Adorava estudar "romances de segunda linha" e novelas (que sugeria aos alunos como forma de melhor entender os folhetins), aventurou-se a pesquisar candomblé e gostava de dizer, por causa de tudo isso, que "eu era pós-moderna e não sabia",. Ganhou o Prêmio Jabuti, em 1997, por seu livro Folhetim e ficou famosa ao traduzir Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, para o francês.
sábado, 26 de maio de 2012
Na Mata Atlântica 59%
das árvores são raras e podem desaparecer
Francisco Bicudo
Durante três anos a bióloga Alessandra Nasser Caiafa atravessou o país algumas vezes para mapear a diversidade de árvores da Mata Atlântica, a vegetação densa e viçosa que já ocupou quase toda costa-brasileira e abriga muitas espécies de plantas r animais encontradas de extinção. Na jornada ela não precisou de botas nem facão: analisou 225 documentos científicos (livros,, teses e artigos) guardados nas 28 instituições de pesquisa que visitou entre 2004 e 2007. Caminhando pela mata, Alessandra só conseguirá cobrir nesse tempo uma parte pequena da vasta área já percorrida por outros pesquisadores.Nessa leitura, a bióloga mineira, atualmente professora da Universidade Federal do Rocôncavo da Bahia (UFRB), Atlântica é considerada um dos eco-sistemas mais ricos do mundo em diversidade de espécies. No trecho que vai do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul há 846 espécies de árvores, no franzino cambuca-peixoto (Plínia rivularis), que não passa de quadro metros de altura e produz frutos avermelhados semelhante á jabuticaba, ao portentoso jequitibá-branco (Cariniana estrellenssis), o gigante da floresta em tupi-guarani, que pode atingir 60 metros de altura.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Não basta TER ASAS
As aves se adaptaram á escassez
de alimento e de
oxigênio durante o voo
Muitos fósseis encontrados na China nos últimos anos estão ajudando a entender melhor como e quando as aves surgiram e começaram a voar. Um dos mais recentes, apresentado em setembro de 2009 na Nature, é o Anchiornis, animal com apenas e quatro asas que viveu há cerca de 150 milhões de anos, 10 milhões de anos antes do Archaeopteryx, até apareceer outro fóssil mais antigo, iniciou a formação de um grupo de animais caracterizados principalmente pela habilidade de voar, ás vezes milhares de quilômetros, como as aves migratórias. "Hoje, 90% das espécies de aves voam", diz o iólogo José Eduardo Bicudo, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e principal autor do Livro Ecological and environmental physiology of birds, publicado em fevereiro pela Universidade de Oxford, Inglaterra. Seus estudos, somados aos de outros especialistas, indicam que as aves conseguiram voar não só porque ganharam asas e penas próprias para o voo, mas também porque ganharam adquiriram adaptações fisiológicas que lhes peritem voar durante semanas em altitudes elevadas, onde há pouco oxigênio, bem acima do que o ser humano consegue chegar, a não ser por meio de avião.
"O princípio fisiológico é simples : quanto menos carga levar durante a viagem, melhor", diz Bicudo. Antes da partida, os músculos que ajudam a voar ganham volume, mas depois atrofiam á medida que a viagem está correndo. Outra peculiaridade é a eficiência digestiva."As migratórias podem aumentar ou reduzir a produção de enzimas digestivas, se têm muito pouco alimento. Se não têm alimento, as células dos sistema digestivo morrem e o trato digestório encolhe á metade do volume inicial. Quando acaba o jejum, o estômago, os intestinos e figado fazem novas células e voltam ao volume normal".
Ver aves de rapina planando sobre a cordilheira do Himalaia, a 9 mil metros de altitude, podes ser um belo espetáculo para nós, embora para as aves provavelmente seja desconfortável: em altas altitudes, faz muito frio e a concentração de oxigênio é baixa. "Elas superam as dificuldades por meio da eficiência respiratória", conta Bicudo. E um artigo publicado em 2006 na Integrative and Comparative Biology, Douglas Altshuler, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, e Robert Dudley, do Smithsonian Institute, descrevem os mecanismos fisiológicos que permitem o voo em altitudes elevadas - e vão além dos sacos aéreos, bolsas conectadas aos pulmões e aos ossos que deixam o esqueleto mais leve. Os pulmões das aves extraem quase todo o oxigênio do ar e a hemoglobina delas tem maior capacidade de ligar-se e de desligar-se do oxigênio que a humana.
Conhecidas pelo olhar arguto, as aves podem ter também olfato razoavelmente apurado. "Muitas espécies de aves marinhas detectam dimetilsulfato, substância gerada por peixes em decomposição, que lhes serve para a navegação e procura de alimentos. Os albatrozes têm um voo relativamente aleatório até encontrar um cardume de peixes que exala dimetilsulfato", relata Bicudo. Além, do olfato desenvolvido, embora por décadas tenha sido desconsiderado, outro conceito que pode surpreender é que o cérebro de mamíferos e o da aves, mesmo morfologicamente bem diferentes, têm estruturas funcionais equivalentes - uma conclusão que põe por terra a expressão cérebro de galinha para designar pessoas pouco inteligentes. "Os pombos podem memorizar 400 padrões de cores", argumenta Bicudo. É também por meio do sistema nervoso que as aves detectam o eixo magnético da Terra e identificam o norte ou o sul.
O PROJETO
Estudo comparativo dasinterrelações de fatoresontogenéticos e ambientais sobrea endotermia de Melipona bicolorLepeletier - n° 2002/13973-2
MODALIDADE
Bolsa de Doutorado (Denise loli)
COORDENADOR
José Eduardo Pereira Wilken
Bicudo - IB-USP
As aves se adaptaram á escassez
de alimento e de
oxigênio durante o voo
Muitos fósseis encontrados na China nos últimos anos estão ajudando a entender melhor como e quando as aves surgiram e começaram a voar. Um dos mais recentes, apresentado em setembro de 2009 na Nature, é o Anchiornis, animal com apenas e quatro asas que viveu há cerca de 150 milhões de anos, 10 milhões de anos antes do Archaeopteryx, até apareceer outro fóssil mais antigo, iniciou a formação de um grupo de animais caracterizados principalmente pela habilidade de voar, ás vezes milhares de quilômetros, como as aves migratórias. "Hoje, 90% das espécies de aves voam", diz o iólogo José Eduardo Bicudo, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e principal autor do Livro Ecological and environmental physiology of birds, publicado em fevereiro pela Universidade de Oxford, Inglaterra. Seus estudos, somados aos de outros especialistas, indicam que as aves conseguiram voar não só porque ganharam asas e penas próprias para o voo, mas também porque ganharam adquiriram adaptações fisiológicas que lhes peritem voar durante semanas em altitudes elevadas, onde há pouco oxigênio, bem acima do que o ser humano consegue chegar, a não ser por meio de avião.
"O princípio fisiológico é simples : quanto menos carga levar durante a viagem, melhor", diz Bicudo. Antes da partida, os músculos que ajudam a voar ganham volume, mas depois atrofiam á medida que a viagem está correndo. Outra peculiaridade é a eficiência digestiva."As migratórias podem aumentar ou reduzir a produção de enzimas digestivas, se têm muito pouco alimento. Se não têm alimento, as células dos sistema digestivo morrem e o trato digestório encolhe á metade do volume inicial. Quando acaba o jejum, o estômago, os intestinos e figado fazem novas células e voltam ao volume normal".
Ver aves de rapina planando sobre a cordilheira do Himalaia, a 9 mil metros de altitude, podes ser um belo espetáculo para nós, embora para as aves provavelmente seja desconfortável: em altas altitudes, faz muito frio e a concentração de oxigênio é baixa. "Elas superam as dificuldades por meio da eficiência respiratória", conta Bicudo. E um artigo publicado em 2006 na Integrative and Comparative Biology, Douglas Altshuler, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, e Robert Dudley, do Smithsonian Institute, descrevem os mecanismos fisiológicos que permitem o voo em altitudes elevadas - e vão além dos sacos aéreos, bolsas conectadas aos pulmões e aos ossos que deixam o esqueleto mais leve. Os pulmões das aves extraem quase todo o oxigênio do ar e a hemoglobina delas tem maior capacidade de ligar-se e de desligar-se do oxigênio que a humana.
Conhecidas pelo olhar arguto, as aves podem ter também olfato razoavelmente apurado. "Muitas espécies de aves marinhas detectam dimetilsulfato, substância gerada por peixes em decomposição, que lhes serve para a navegação e procura de alimentos. Os albatrozes têm um voo relativamente aleatório até encontrar um cardume de peixes que exala dimetilsulfato", relata Bicudo. Além, do olfato desenvolvido, embora por décadas tenha sido desconsiderado, outro conceito que pode surpreender é que o cérebro de mamíferos e o da aves, mesmo morfologicamente bem diferentes, têm estruturas funcionais equivalentes - uma conclusão que põe por terra a expressão cérebro de galinha para designar pessoas pouco inteligentes. "Os pombos podem memorizar 400 padrões de cores", argumenta Bicudo. É também por meio do sistema nervoso que as aves detectam o eixo magnético da Terra e identificam o norte ou o sul.
O PROJETO
Estudo comparativo dasinterrelações de fatoresontogenéticos e ambientais sobrea endotermia de Melipona bicolorLepeletier - n° 2002/13973-2
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Bolsa de Doutorado (Denise loli)
COORDENADOR
José Eduardo Pereira Wilken
Bicudo - IB-USP
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