sexta-feira, 29 de junho de 2012

O OBSERVADOR 
DA VIDA
Enquanto se prepara
para escrever sua
última novela, Manoel
Carlos conta sua
história - e mostra
de onde retira os
dramas que apaixonam
os brasileiros
Martha Mendonça


  Era nosso terceiro encontro. Nos dois primeiros, a conversa foi tão boa que já me dava por satisfeita. Mas, naquela terça-feira de março, o novelista Manoel Carlos me telefonou sugerindo um novo encontro no fim da tarde, na livraria Argumento, no Leblon. Quando cheguei, Maneco - como é chamado pelos - já estava lá, numa mesinha de canto, me olhando. A atriz Fernando Montenegro tem razão. "Os olhos de Maneco são como ventosas. Ele se expõe pouco encontro, Manoel Carlos pergunta mais de minha rotina de trabalho e como faço para trabalhar e criar os filhos. É bom ouvinte. Presa na armadilha, conto os detalhes, pensando se inspirarei algum personagem. "As melhores histórias estão aqui e ali", diz ele.
  Famílias como a minha e a sua lhe interessam. Os laços de família - título de uma de suas novelas de maior sucesso - são a matéria-prima de suas histórias. Talvez por isso nenhum outro produto da dramaturgia mundial tenha tantas cenas de café da manhã, almoço e jantar quanto suas histórias. Nos lares se desenvolvem tanto as tramas mais trágicas quanto a discussão trivial sobre o aumento do pão. Os gêmeos separados no berço de Baila comigo, a mãe que troca de bebê com a filha que perdeu sua criança no parto de Por amor, a filha amada que fica tetraplégica em Viver a vida - todos esses dramas se misturam á crônica de questões íntimas como o vazio feminino, mulher que não consegue ser fiel, o homem que espera a mulher idealizada. Agora, quase aos 80 anos (que completará no ano que vem), Manoel Carlos diz que quer escrever só mais uma novela. Acompanhadas diariamente por 50 milhões de telespectadores, as novelas das 9 da noite da TV Globo, o horário mais nobre da televisão brasileira, saem da pena de poucos autores.   Trata-se de trabalho cansativo, cercado de pressão por todos os lados. Nesse seleto time de autores - as "ararinhas-azuis", raras e em extinção, como o escritor Aguinaldo Silva definiu -, Maneco é o mais velho.
Ele entregará no fim deste mês a sinopse de seu último folhetim, previsto para ir ao ar em 2013. Será sua derradeira Helena, nome comum a toda as suas protagonistas desde Baila comigo, de 1981. Vivido por estrelas como Regina Duarte, Vera Fischer e Maitê Proença (leia a galeria nas páginas 84 e 85), elas são apresentadas ao público e amadas por ela a cada três anos, mais ou menos. Helena, ele costuma repetir, não foi nome de namorada, mulher, nem de alguém da família. "Escolhi por ser um nome forte. Uma curiosidade: em 1952, com menos de 20 anos, Maneco adaptou para a antiga TV Paulista o livro Helena, de Machado de Assis. Era teleteatro, representado ao vivo diante das Câmeras. "Essa Helena não está diretamente relacionada ás Helenas das novelas", diz ele. Agora, 60 anos depois, já escolheu a atriz que interpretará  sua última Helena: Julia  Lemmertz, filha de uma de suas mais queridas Helenas, Lilian Lemmertz, morta em 1986. Ela encabeçava o elenco de Baila comigo, primeira novela de Maneco no horário das 9.
  Manoel Carlos ouve por vício profissional e, pela mesma razão, é também um narrador fascinante. É visível que narra suas histórias menos para impressionar que pelo prazer de lembrar dos acontecimentos e dos amigos - muitos já morreram. Se prende a detalhes saborosos, como o apelido dado a Chico Buarque e Nara Leão no programa Para ver a banda passar, de 1967, na TV Record. "Como dois tímidos poderiam estar á frente de uma atração? Eles eram ótimos, mas faltavam pouco e baixo. Ganharam o apelido de desanimadores de auditório", diz. Maneco também parece viajar no tempo ao falar sobre a morte de Jardel Filho, em 1983. Jardel era o galã de sua novela Sol de verão. Vivia um mecânico doce e rústico, par romântico da protagonista rica. O casal ganhara  o Brasil, e a audiência ia muito bem. Num domingo de fevereiro, Maneco saiu de cada cedo para comprar os jornais. Em tempo pré-internet, passava numa banca de Ipanema e levava várias publicações. "os jornais são sempre fonte de enredos e personagens", afirma. Naquele dia, não chegou a ler nenhum. No rádio do carro, era anunciada a morte de "Jardel Filho, o Heitor de Sol de verão  aos 56 anos, de infarto". Ficou catatônico por dez minutos, sem saber o que fazer. Uma hora depois, estava na de Jardel com os amigos Tony Ramos e Paulo Figueiredo, que também faziam parte do elenco. Antes que o corpo fosse velado, fizeram a barba do amigo morto."Estava grande. Jardel era bonito demais para se despedir daquele jeito"diz. Maneco não escreveu o fim da história. Não conseguiu. Foi substituído por Lauro Cesar Muniz.
  Não seria a primeira nem a última vez que ele teria de lidar com a morte precoce de gente amada. Quando seus filhos ainda eram adolescentes, perderam a mãe, a ex-mulher Maria de Lourdes, artista plástica. Com apenas 36 anos, ela caiu da escada, em casa, quando saia para uma festa. Os dois haviam se casado quando ele tinha 19 anos, e ela 17. "Ela estava grávida e resolvemos ficar juntos", diz. O bebê que os unira, Manoel Carlos Filho, o Manequinho, morrera em março, três semanas antes de nossa primeira conversa, de infarto. Tinha 59 anos. "A morte de um filho é uma armadilha no fim de um corredor escuro", afirma Maneco. Uma armadilha que, para ele, veio duas vezes: em 1988, seu  segundo filho, Ricardo, ator, morreu da aids. A filha Júlia, também atriz, deu dois sustos - duas meningites na infância, que também quase a levaram. Maneco tem ainda mais dois filhos - Maria Carolina, roteirista, de seu casamento com Cidinha Campos, e Pedro, irmão de Júlia, de seu atual casamento, com Bety Almeida. Instintivamente, lhe digo que com tantos dramas, sua vida poderia ser uma novela. Por trás dos aros grossos de seus óculos, seu olhar me diz que meu comentário nada tem de inédito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário