quarta-feira, 23 de maio de 2012

Ética/Por Mario Sergio Cortella*

Ética, educação e meio ambiente**
  Ética e meio ambiente. Pareceria coisa muito estranha se um professor ou uma professora estabelecesse relação entre esses dois pares. Afinal de contas, dá a impressão, as vezes de que ética lida só com sociedade, lida só com pessoas, com seres humanos na relação entre nós. E quando se fala em ética e meio ambiente, há uma cera estranheza, supondo, por exemplo,que nossas relações com o mundo, com a natureza, com os outros seres vivos, com as outras formas de existência que o nosso planeta carrega, deveriam da  biologia ou até como felizmente cada vez mais acontece, da ecologia.
  Uma vez, um grande historiador britânico chamado Arnold  Toynbee (1889-1975)escreveu uma obra de História intitulada A Humanidade e a Mãe Terra.  Nesta obra, logo no prefácio, ele aponta uma ideia que vez ou outra volta á cena, que é a noção de biosfera, ou seja, que o nosso planeta - e nós, claro, dentro dele - é uma esfera de vida, é uma bola de  vida, e que o próprio planeta Terra seria um ser vivo. Tal como temos em nós, homens e mulheres, outros seres dos habitantes deste ser vivo, que é o próprio planeta.
  Essa teoria não é sempre aceita no dia a dia. A ciência vez ou outra a discute;  não é algo tão aceitável, mas ela nos aponta ao menos uma referência. O conjunto do nosso planeta, a nossa Terra, como um todo e, sem dúvida, mais extensamente o nosso universo, é ele sim, este planeta, um ser onde a vida pulula, a vida ferve, a vida existe há pelos menos, pelo que se calcula, 5 bilhões de anos.
  Nós, homens e mulheres, não somos a única forma de vida. Nada nos dá legitimidade para supor que sejamos os proprietários da vida que neste planeta está. Ao contrário, não somos proprietários somos usuários compartilhantes. É importante que as nossas alunas e a os nossos alunos, e nós também, entendam o que significa isso. Somos usuários compartilhantes, isto é, o planeta, ele é por nós usável como o nosso lugar de vida, como a nossa casa, mas nós o compartilharmos com outras formas de vida. Este planeta é o lugar onde nos abrigamos, onde nos protegemos e onde outras bilhões e bilhões de formas de vida também o fazem. Relembremos: a ciência calcula que, afora a espécie humana, por nós chamada de bomo sapiens,  no nosso planeta haja mais de 30 milhões de espécies diferentes com bilhões, infinitamente bilhões, de seres vivos.
  Só para se ter uma ideia do que isso significa, em cada ser humano, cada um de nós, você e eu, há mais seres vivos agora do que o número de seres humanos que há no planeta. Vivendo em você, vivendo em mim. Uns estão conosco há 30 anos,  dependendo da idade, ou há 20, 50 anos. Outros têm 10,15 metros de comprimento. Outros acabam de chegar em nós. O nome desta capacidade de viver sem anular a outra forma de vida, ou seja, de convivência biológica, o nome disso é simbiose. A expressão "sim", em grego, significa "junto" e "bio" é a própria ideia de vida.
  E a vida é um  estupendo mistério. Nenhum de nós tem clareza sobre as origens de fato. A ciência busca apontar, e também a religião, a filosofia e a arte, mas nós não temos toda a clareza. No entanto, esse mistério aponta para nós uma direção. Esse é um mistério do qual cada forma de vida faz parte contínua, e um dos modos como a vida se manifesta é em você ou em mim, no teu aluno, na tua aluna. Nós precisamos colocar isso dentro do nosso trabalho pedagógico para que não nos apareça uma coisa perigosa, que fratura, que quebra a relação da ética com o meio ambiente, que é a arrogância.
  Cuidado, você e eu, com a arrogância. Nós, humanos, somos muito arrogantes em relação ao planeta. Por exemplo, como  dissemos, muitas vezes nos consideramos proprietários desse planeta, e não usuários. Atenção: para cada homem e mulher que há no planeta existem 7 bilhões de insetos. Imagine, e eu sempre brinco com isso, e se hoje á noite  só os teus vêm te visitar? Aqueles que te cabem nessa proporção. Vêm lá, batem na porta do teu quarto e falam: "Qual é? O que vocês acham que estão fazendo com o nosso planeta? Vocês acham que são proprietários dele? Não são".
  Nenhum de nós pode ser arrogante a ponto de supor que o planeta é propriedade nossa para fazermos o que quisermos. Cada vez que a gente afeta qualquer coisa do equilíbrio da ecologia do nosso planeta, nós somos afetados. Cada vez que infectamos a água, cada vez que desperdiçamos recursos, cada vez que a gente destrói uma floresta sem reposição, cada vez que atingimos uma outra forma de vida de maneira maléfica, vitimamos e somos vitimados. Muita gente supõe que quando se fala em ecologia não podemos mais tocar na natureza. Ao contrário, faz parte desse equilíbrio que os seres vivam em inter-dependência, existe até cadeia alimentar entre os vários seres.
  A questão é outra: é a suposição que alguns homens e mulheres têm de que nós fazemos o que queremos no planeta. "Ele nos pertence, se a gente o quiser para o nosso uso, a gente escava, destrói o meio ambiente, queima floresta, agride e maltrata outros animais, quebramos a possibilidade de a nossa atmosfera ser respirável". Afinal de contas, diriam alguns: "Nós somos livres. A gente faz o que quiser".
  O que você e eu,  com os teus alunos e alunas, temos de ter clareza é que somos um ser importante, um ser com um nível de evolução positiva bastante grande entre as espécies.
  Exatamente por isso precisamos ter consciência do que fazemos, para proteger a vida em vez de ameaçá-la
*Mario Sergio Cortella é filosofo, com mestrado e doutorado em Educação pela PUC-SP, na qual atua  desde 1977, e é professor-titular da pós-graduação em Educação.
**Exceto organizado pelo autor e extraído de CORTELLA. M.S. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. 13ª ed., São Paulo: Cortez, 2009

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