terça-feira, 29 de maio de 2012

MENTE ABERTA
Um gênio do papel
e da tinta
David Mazzucchelli
levou dez anos
para criar uma obra
inovadora - ao largo
da revolução digital
Mariana Shirai

  Hoje em dia, as inovações costumam chegar na forma de bits. Elas são criadas para celulares, computadores e tablets - instrumentos digitais  que transformaram, radicalmente, o consumo de informação e arte. O quadrinista americano David Mazzucchelli fez difederente. Eles passou dez anos trabalhando numa obra totalmente inovadora - e totalmente concebida para o papel e a tinta. Seu romance gráfico (graphic novel) "Asterios Polyp (quadrinhos na Cia., 344 páginas, R$ 63), lançado em 2009 e que chega ao Brasil,  foi aclamado como obra-prima pela crítica e recebeu os princípios prêmios da área, o Eisner e o Harvey. "Asterios Polyp é um divertimento deslumbrante e habilmente construído, ainda que ás vezes seja enlouquecedor e mesmo sufocante", escreveu Douglas Wolk, do jornal americano The New York Times.
  O atraso da edição brasileira se deve principalmente ás negociações necessárias para preservar a visão original de Mazzucchelli. Ele acompanhou todo o processo de edição do volume, impresso na China em papel japonês reciclado. Os pedidos feitos por ele, do tipo certo de tinta e mudanças na tradução de Daniel Pellizzari, revelam algo de sua personalidade quase desconhecida. Mazzucchelli vive recluso, quase não dá entrevistas e raramente  se deixa fotografar.
  Aos 51 anos, ele virou uma lenda, que se apoia numa obra respeitada no mundo da cultura pop. Em parceria com Frank Miller (Sin city), na década de 1980, Mazzucchelli ajudou a deixar as HQs de super-heróis mais maduras. Também com Miller, imprimiu um estilo sombrio a personagens como Batman e Demolidor. As lendas do universo dos quadrinhos dizem que ele recusou propostas milionárias as para desenhar a série X-Men. Queria ser totalmente independente. O principal resultado dessa decisão veio depois de dez anos de trabalho, na forma de Asterios Polyp.
  O livro narra as aventuras de um arquiteto renomado por seus livros teóricos, mas que nunca viu um projeto seus sair do papel. Arrogante e egocêntrico, aos 50 anos reavalia sua vida após o fim de um casamento e um incêndio que destrói seu apartamento. As idas e vindas entre passado e presente são entrecortadas por digressões que mostram a visão dos personagens sobre temas graves, como medos, religião ou tempo. "O livro é muito rico, contém muitas chamadas, por isso produziu tantas discussões na internet", diz o editor do volume nacional, André Conti.
  Asterios Polyp encanta principalmente por seus atributos gráficos. Nenhuma decisão de Mazzuchchelli é gratuita. Cada personagem tem uma identidade visual particular. A cor, a forma e até a caligrafia usadas nas falas os distinguem - e isso ajuda o leitor a imaginar o som de suas vozes. O mundo de Asterios é composto de formas geométricas azuis. Hana, sua ex-mulher escultora, vê tudo a partir de risquinhos cruzados vermelhos, como num esboço. É encantador ver os universos dos dois, tão diversos, se mesclando no trecho em que eles se conhecem (foto ao lado0. Em tempos de tablets e livros eletrônicos, ter Asteri Polyp em mãos renova o prazer de leitura em papel.

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