terça-feira, 29 de maio de 2012

No rastro
de um mito
da música
O cancelamento de
shows as lendas em
torno de João Gilberto


Mauricio Meireles
  A lenda diz assim assim;  como Buda, que atingiu a iluminação de-baixo de uma árvore, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira descobriu seu dom de tocar violão ensaiando embaixo  de uma  tamarindeiro. Mas tarde, foi a Bahia para o Rio de Janeiro tentar a vida como músico. Sem dinheiro e atormentado, deixou a cidade em 1956. Viajou para Porto Alegre e Diamantina. Reapareceu em 1958, quando sua versão de "Chega de saudade" mudou para sempre a música nacional, inaugurando a bossa nova. Como Cristo, cuja vida os evangelhos só contam a partir dos 30 anos, não se sabe o que aconteceu com João naqueles dois anos de sumiço. Só se sabe que ele criou algo belo. E viu que era bom.
  A comparação bíblica é exagerada, mas assim os fãs de João Gilberto o tratam: com uma devoção quase religiosa. É o que mostra o livro Ho-ba-la-lá: á procura de João Gilberto (Companhia das Letras, 184 páginas, R$ 34), do alemã Marc Fischer, que conta sua peregrinação quase mística ao Brasil e as tentativas fracassadas de encontrar João, seu guru. Não conseguiu, claro.
  Recluso em seu apartamento na Zona Sul do Rio,  o homem que virou sinônimo da bossa nova quase não sai de casa e raramente recebe visitas. Aos 80 anos, radicalizou a misantropia, que, desde jovem, sempre foi uma de suas marcas. Na ausência do homem real, a multidão  de fãs cultiva e amplia o anedotário sobre ele. Dizem que ele fala com gatos e com mortos, toca violão 12 horas por dia e ás vezes uiva para a lua. Também é devoto do guru indiano  Paramahansa Yogananda (1853-1952), que jura ter aprendido a falar inglês milagrosamente.
 Sua ausência da vida social gera mal-entendidos. No ano passado, um perfil com seu nome apareceu no Facebook. O dono da conta trocou mensagens com amigos de João, falava como ele e conhecia histórias íntimas. Mas quem conhece o cantor nega que fosse ele. Seu isolamento é tanto que João não foi á homenagem que Juazeiro, sua cidade natal, na Bahia, prestou a seus 80 anos. Com devoção quase religiosa, a cidade preserva a cama em que ele nasceu. Quando o santo abandona o mundo, as pessoas cultuam suas relíquias.
  João tem o hábito conhecido de adiar shows - quando deveria ter iniciado a turnê comemorativa de seus 80 anos, marcada originalmente para estrear em 15 de novembro. O motivo foi um "problema de saúde". Comentou-se que, na verdade, o mito estaria deprimido Difícil saber. Mesmo quando aparece no dia e na hora marcados, joão ás vezes abandona a apresentação no meio. O ar-condicionado fez barulho, alguém suspirou na penúltima fila do teatro, a acústica precária do teatro desconcentrou o menestrel..."Eles quer que tudo aconteça, que o teto caia, tudo pegue fogo - só para ele não estar ali", diz uma de suas ex-mulheres, falando na inexpugnável timidez do artista.
  Na impossibilidade de encontrar seu ídolo, Fischer - um jornalista e autor de romances que se suicidou em abril, aos 40 anos - seguiu suas pegadas. Comeu o prato preferido de João, descobriu um sósia, encontrou o banheiro onde ele tocava violão e conversou com seus amigos. Os depoimentos tratam João Gilberto como ser sobrenatural. ""É preciso tomar cuidado para que ele não entre na gente e tome posse, feito uma jiboia", diz a cantora Joyce, que conviveu com João nos anos 1970. Como última tentativa, Fischer mandou uma carta ao cantor. Pediu para encontrá-lo. Sem sucesso. Numa madrugada, acordou com o telefone tocando. Do outro lado da linha, alguém pôs "Ho-ba-la-lá" para tocar. Serie ele, o inalcançável?
  Assim como João abandonou o público, o Brasil aparece ter abandonado o João. A turnê em comemoração a seus 80 anos demorou a vender todos os ingressos. Alguns estão encalhados. Há quem explique a dificuldade de vendas pelo preço, que varia R$ 500 a R$ 1.000. A vida está difícil para o homem, mas o mito continua em alta. "Esquisito quem, cara-pálida? As gerações que cultuaram vagabundos que fazem questão de ostentar limitações musicais vão achar alguém esquisito? João Gilberto é o mais cool dos cools", diz Caetano Veloso. Amém.

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